segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Não Tenho Preço!

Já deixou de ser uma questão de entender. Ou mesmo de aceitar. A questão que paira agora é deixar pra trás. É uma questão curiosa, até mesmo irresoluta, na medida em que toda renúncia é uma partida.


Reflita por um momento. Uma incapacidade é um peso morto sempre? Ser incapaz de fazer algo é um demérito? Não, não creio que seja. Até porque existem muitas coisas que não devem ser feitas, sendo a incapacidade de fazer isso essencial.

Mas, da boca de Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Existem sim incapacidades, insuficiências e incompetências que vem para mal. E frente a tamanha hipocrisia que se estabelece na humanidade hoje, me faço ouvir apenas por essas palavras, Deus há de ver.

O grande problema é essa coisa do escrachar o politicamente correto. Tudo tende ao equilíbrio. Ser (de uma maneira mecânica e forçada) politicamente correto o tempo todo não é legal. Inibe várias possibilidades de mudança, de melhora que poderiam vir-a-ser pelo meio da insatisfação, da inquietude.

A verdade é que hoje, todos somos falsamente confortadores, e o conforto não é algo produtivo (no sentido menos capitalista que você encontrar). Me refiro à produtividade para a vida, de agir para a própria ascensão, de não desistir de querer ser algo. Porque hoje, nossos amigos, nossa família, tudo tende a nos manter nessa bolha de plástico e ar chamada conforto, conformismo.

Se você não é o melhor, te dizem isso da forma mais leve possível; se você faz algo errado, minimizam; se segue as tendências da massa, te dão um biscoito. Caramba! Diga-me se eu estiver errado, me reprima se eu sair da linha, se eu não for bom o suficiente, me critique. Porque aí, eu posso mudar, eu posso perceber, eu posso melhorar e me tornar uma pessoa mais válida.

Falta de crítica e de senso crítico gera algo deprimente: efluxo de idéias medíocres. Se não há um “semancol” prático para o que se diz/faz, todos jogam merda no ventilador, e o perfume que é lançado nunca conseguirá superar esse fedor intelectual. O fato de eu estar escrevendo mostra isso. Eu mesmo não sou o escritor genial e inovador de que precisamos, sou apenas um crítico, e dos mais chinfrins, mas mesmo assim, não estou me referindo a mim nesse pequeno trecho.

O maior problema é: a massificação da informação. Sejamos francos, as pessoas são diferentes. Sejamos francos, em cada âmbito, existem, sim pessoas melhores que as outras. É hipocrisia achar que todos somos iguais. Porque eu posso falar que fulano é melhor que beltrano no futebol, posso dizer que Maria é mais bonita do que Ana, mas não posso dizer que Chico Buarque é melhor que Restart? Porque é uma questão de massificação de informação. A horda de ignorantes que reina hoje no mundo já está acostumada a discernir pessoas por jogar futebol ou por terem simetria facial e físico bem-trabalhado. Mas não conseguem compreender a crítica e a profundidade semântica-melódica de um Chico Buarque. Mas os coloridos do Restart ou as “Barraqueiras” do funk são perfeitamente compreendidos (afinal, não há o que se compreender!). Aí as pessoas não querem se sentir menos que as outras e segregam esse tipo de cultura, taxando-a (e a quem gosta) de arrogante. É a diferença entre Crepúsculo e Nietzcshe, a diferença entre Deja Vù e Debussy, a diferença entre Carl Sagan e Xuxa.

O pior é, para se incluir socialmente, as pessoas menos ignorantes aceitam esse tipo de bestificação cultural. E para as pessoas que lideram isso é um banquete real com sobremesa. Pessoas que não compreendem complexidade não conseguem pensar de maneira complexa, ou seja, são facilmente manipuláveis. E é interessante para os líderes controlar. Então, os lideres fazem o quê?

Ridicularizam o salário de professores, tornam a programação de TV aberta um lixo conceitual, promovem expressões culturais conservadoras (que visam manter a situação como algo bom), inibem o humor (que desde a Grécia antiga é a expressão viva da crítica), dão subsídios e bolsas que tem duas facetas: não permitem ascensão sócio-cultural, porém não permitem queda na qualidade de vida das populações carentes, de modo que aparentam ser uma solução inovadora e paternalista. Dão, com dinheiro público migalhas do que desviam do povo e com essas migalhas, se mantém embasados no povo que exploram. Isso não é Brasil, isso é Mundo.

Porque os EUA, por piores diplomaticamente que sejam, são ainda o país mais poderoso do mundo? Porque desde o século XVIII, quando inicia sua existência, esse país tem bases sólidas no que tange a crítica e a participação do povo na política. Os americanos podem ser ignorantes, alienados seja o que for, mas todos SABEM o que se passa em seu país. Existe “maracutaia” política lá? Claro. Mas se o povo fica sabendo, a punição é exemplar. Quando se é autuado, todo policial diz por que se está sendo preso, citando o ARTIGO da constituição que foi infringido. Os cidadãos sabem seus direitos, deveres e domínios. A cultura intelectual é bem, o esporte é bem, a produção científica é bem, a saúde é bem. E todas essas áreas têm investimentos sólidos e cobrança de resultados.

A maioria das pessoas não sabe o que é política. No Brasil, política é associada simplesmente a assumir um cargo de administração estatal e entrar par ao esquema e corrupção. Só que da origem da palavra (Assunto da Pólis = Cidade/Estado), a política é nada mais nada menos do que o assunto do cidadão, a discussão em torno do papel, dos direitos, do dever e do cotidiano de um cidadão inserido em uma sociedade. Frente a isso, percebemos que a massa não era cidadã na Grécia, e que somente a elite aristocrática era considerada politizada e passível de praticar a política. Hoje, as coisas se articulam de tal maneira que é a massa que se considera incapaz de praticar política. E os “corajosos” que se arriscam, ou são das ciências sociais, ou são políticos que cedem à facilidade de se estar no comando da horda bestial de manobra. Comprovação disso é perguntar pras pessoas se elas gostam de política. A resposta mais freqüente costuma ser um não veemente associado à algum comentário como “ é algo nojento, sem princípios”. Agora, pergunte à esse gênio mediano se ele sabe o quê é política.

Outro conceito deturpado é o da democracia (demos = sabedoria/ cratos = governo, liderança). Como os cidadãos da Grécia antiga eram apenas os mais abastados e que tinham condições de se dedicar à prática intelectual, eles criaram o conceito de Democracia, dizendo que as decisões deveriam ser de todos os cidadãos, visto que eles eram os mais sábios, em conjunto (lembre-se, cidadão, naquela época eram somente os mais ricos). Então, hoje, como, na teoria todos somos cidadãos, a democracia se estende a todos nós, sem considerar se realmente essa população tem a sabedoria inerente do termo empregado. Hoje, vivemos a “alienocracia”, o estilo de governo que é ditado pela massa alienada pelos preceitos “emburrecedores” provindos das camadas superiores do poder.

Chegamos então ao ponto: como mudar isso? Deixando de elitizar o conhecimento. Deixando de ser tão complacentes com a mediocridade. Remete ao início desse texto. Vamos criticar, não vamos nos conformar com o que está aqui. É uma luta onde vamos morrer tentando, mas não vamos morrer na praia. Talvez, no futuro, nossos descendentes possam viver o áureo da democracia, um real governo integralmente da sabedoria e do povo. Como diria a filósofa Dóri, “Continuem a nadar!”

2 comentários:

  1. Aoba Japoneis, deve ser a primeira vez que deixo um comment aqui xd.

    Acho que a questão em si não é a falta de acessibilidade ao conhecimento, mas pelo fato das pessoas não estarem afim de aprender (leia-se estudar, pensar, decidir, conhecer e cia). Isso ocorre pelos mais diversos motivos, mas a maioria é por preguiça ou "acomodação" mesmo.

    O ser tende a ir se adaptando as regras de um grupo social para não ser excluído, e, juntando ao fato da crítica não ser bem vista pela grande massa, que pensa nela como um simples mal dizer, cria esses comportamentos falsamente comfortadores que você cita em algum lugar no seu post (já me perdi aqui xd)

    É triste ver que a crítica não é vista como algo que visa melhorar o alvo dela, apontando os possíveis erros para que eles sejam eventualmente corrigidos.

    Política nesse país é algo falho, em praticamente todos os sentidos. Não é algo que necessite de uma reforma, mas sim algo que precisa ser refeito, embora politicos sejam só marionetes das organizações detentoras de capital.

    Acredido que um dia isso mude, não de um dia pro outro, mais lentamente, as coisas vão caminhando para algo melhor, nem que tenha que dar uma passada no fundo do poço antes.
    2012 talvez esteja ai pra isso hehe.

    Ps.: Aproveitando para fazer uma quase-crítica, tira a p.... do banner do meu ex-blog ali dos links, já deve fazer quase 1 ano que ele morreu kkkk.

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