sábado, 9 de janeiro de 2010

Solução

Por palácios que contemplam a miséria
E favelas com mirantes que contemplam o bom gosto
Pela sociedade que contempla uma injustiça atroz
Calados,
Desarmados,
Desconsolados
Eu quero a arte
Que na poesia faz minha voz ecoar
Que nas performances me faz armada
E ainda que pouco influente
No coração consolada.

Pela lógica do sistema
Que quer te comprar
Mas também quer te vender
Que chamam liberdade
O rico enriquecer
Eu quero a singeleza
Que não me custa dinheiro
E me trás de brinde
Muito valor, paz e nobreza.

Pela feia fumaça
Que apaga da cidade a beleza
Pelos rostos pálidos
E pelas cinzas
Que ocuparam o lugar da natureza
Pelas flores que o concreto enterrou no seu quintal
E pelas roupas desbotadas no varal
Eu quero a cor
que preenche esses jardins
cora essas faces
enche os olhares
e transborda nos corações

Pela rotina que não desejo
Pelo amor que amorna
Pelos sentimentos medianos e amenos
e o eterno repetitivo
Eu quero a paixão
que é eternamente saborosa
ainda que finita
que é profundamente verdadeira
ainda que por um dia.

Simplesmente pela dor
Pelo ruído das vozes assustadas
Pelo calor das lagrimas angustiadas
Pelo amargo do nosso desgosto
Eu quero a satisfação dos sentidos
Que é minha única solução egoista
O doce
O afinado
O odor entorpecente
E o gozo
Que só de sacanagem
É mais gostoso que sua ganância, sua insanidade

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Mensagem ao futuro e ao presente.

Que falar aos que estão por vir?
Que diremos?
Diremos que vivemos intensamente,
Sem economias nem reflexão.
Contaremos nossos feitos,
Todos eles, feitos de outros, de outrora.

Cantaremos as lindas melodias,
"Dança do Quadrado" e "Créu"
Mostraremos nossas gurias
Feitas por Papai do céu.
Elas mostram suas "qualidades"
Porque estão todas expostas
Só olhos veem as beldades
Que nunca poderão te dar respostas.

Glória aos nossos governantes
Homens inteiros, sensatos
Assim como os que vieram antes
Inteiramente ratos.
São apenas brincadeiras sapecas
Brincadeiras de esconder
Dinheiro nas meias e nas cuecas
E esquecer de devolver

Lembrar-nos-emos do etanol
Que carros e homens consumiram
Do antigo besteirol
Assim como nós, os antigos já riram
E tiveram que escolher um candidato
Entre pular no fogo e do precipício
Fico com a decisão do mais sensato:
Tento emudar o artifício.

Acabo como comecei, sem rima
Não quero participar desse padrão, textual
Nem do padrão da nação
Que se tem tão bem
Que a fazemos tão mal.

Equilíbrio emocional

Mais uma das reflexões particulares, em que me pego divagando sobre coisas que vivo, ou sobre conselhos que ouço, e com os quais tento aprender. Hoje, aqui sobre dois extremos que costumam atrapalhar muito o desempenho em qualquer situação onde se exija das emoções, além de qualquer capacidade. Vestibulares, empregos, concursos, disputas, esportes, relações, encargos. Tudo depende da dosagem desses dois extremos.
Em uma ponta, o pessimismo. A falta de auto-estima. Uma atitude que visa desmerecer a si próprio, seja por insatisfação, seja para justificar uma eventual falha. Quando estamos pessimistas, tudo parece mais difícil, custoso, ruim, ineficaz e insuficiente. Toda atividade se torna obrigatória e pesada. Não é lá algo que queremos ter conosco na efetuação de certa atividade.
Na outra extremidade, o otimismo exacerbado, a autoconfiança cega e burra. Aquela sensação de que somos infalíveis, acima de quaisquer suspeitas e erros. Isso nos torna arrogantes, passíveis de sermos enganados, por que passamos a nos julgar tão perfeitos, tão capazes, que não admitimos nem a possibilidade de nos cercarmos de pessoas menos capazes e afinadas com esse sentimento. É nessa situação que fazemos todas as grandes cagadas da humanidade. Um transe psicótico que não permite a você olhar aquela resposta mais uma vez, na certeza de que estamos acima dos erros eventuais.
O que me faltou, e em particular, o que nos falta, como seres humanos, é buscar um pouco de equilíbrio, de saber ponderar as capacidades e as esperanças, visando não cegar nossas possibilidades, fazendo com que não sejamos cautelosos, nem nos subestimar, mantendo a capacidade emocional aquém do que ela pode provir. Achar o seu lugar é essencial para poder almejar, sem tirar os pés do chão.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Cara-a-cara

            Ontem estava lá, pensando com os meus botões. Sobre telemarketing. Bastante estranho, já que é uma das coisas que mais abomino na vida. Mas resolvi ponderar, com alguma paciência, e deixar a raiva de lado por uns poucos instantes.
            O problema desse tipo de serviço reside essencialmente na impessoalidade. É a mesma coisa que você estar no “msn” conhecendo uma pessoa nova, para a qual se apresenta como bem entender, já que não há um compromisso presente. A(o) atendente será convenientemente agradável e educada ao fone, mesmo que você seja um brutamontes, porque ela nunca viu você, e tampouco vai ver a sua face ou escutar a sua voz e reconhece-la em outra ocasião.
            E esse mesmo oportunismo justifica o fato de eles protelarem datas, procrastinarem entregas e mudarem condições sem te consultar, visto que você não terá uma entidade concreta para a qual apelar. Depois que você já pagou pelo serviço, está agora dependendo da (má-)vontade desses profissionais.
E refletindo bem, o mundo tem ficado mais impessoal, no âmbito geral. As relações não têm mais o compromisso, as pessoas não querem mais se ver, a comunicação rápida e impessoal do computador, que deveria ser um adendo social, acaba por se tornar um distanciamento. Estamos criando neo-ermitãos.
O compromisso com o trabalho, com a ética e com os valores, que se via, por exemplo em negociações cara-a-cara, se tornou na falta de compromisso do telemarketing. Literal e metaforicamente. Afinal, com quem eu falo, com meus amigos, ou com uma tela?
Pensem nisso.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Tocar no contratempo

Numa breve explanação, contratempo é o espaço que existe entre um tempo e outro, em um compasso musical. É como uma sístole cardíaca, que fica entre duas diástoles. As melodias no contratempo precisam de bastante atenção, para serem apreciadas, bem como precisam de sensibilidade musical.


Em tempos mais remotos, os gênios musicais compunham melodias em contratempos e eram incompreendidos, pelo simples fato de fugirem à regra, à batida do tempo, estabelecida. Tempos depois, descobriu-se a magia por trás das melodias, antes descartadas, hoje, admiradas.

Mas o contratempo em questão é metafórico, remete, em particular aqui, a vanguarda, o avanço intelectual em relação ao tempo. É se libertar das correntes a que chamamos convenção, lugar-comum. O contratempo vem como uma proposta de liberdade intelectual, na medida em que foge da normalidade, ainda que um pouco, para mostrar que, nas entrelinhas de um texto, há espaço vago que podemos preencher. Que entre dois tempos, existe o contratempo.

Nada de extremismos, por favor. O contratempo só existe devido a própria existência do tempo. O próprio vocábulo é uma derivação por prefixação de "tempo". A questão é: nós devemos ficar atentos à rotina a que nos prendemos, observando a hora em que é válido e oportuno fugir da linha do compasso, pular entre dois tempos e encher de inovação, o ar da normalidade mórbida.

A melodia mais linda será tocada com tempos e contratempos, da capo al fine, uma mescla de bom-gosto e experimentação, classe e rebeldia. O contato do bom com o melhorado é uma obra-prima, na música e na vida.

Faça o que eu falo, preste muita atenção no que eu digo.

É uma grande ironia, o modo como nós aconselhamos a todos e insistimos em agir na contramão do que afirmamos. Hipocrisia? Não é! Exatamente pelo fato de que é muito mais fácil perceber as coisas olhando de fora do que fazendo uma auto-análise.


Bem simples de entender. Nós temos a percepção de tudo o que acontece com nossos amigos e, como não sabemos o que se passa na cabeça deles, só enxergamos a ação, e não a motivação. Logo, fica fácil discernir o certo do errado. Contudo, quando se trata de nós mesmos, todas as nossas ações são justificadas por pressupostos da nossa mente. Em nossa cabeça, partimos do princípio que estamos certos, independentemente do que se passa fora dela.

Nesse caso, voltando ao assunto dos conselhos, preste atenção no que seus amigos dizem, refletindo de forma respnsável sobre isso. Se for algo construtivo, aceite, se não refute. Mais importante, repare no modo de agir desse seu amigo, e não o condene se caso ele não haja de acordo com os próprios pressupostos. Mesmo agindo assim, ele está te ensinando lições valiosas.

Como, por exemplo, o fato de não agir sem refletir, visto que podemos estar equivocados nas nossas avaliações; não criticarmos as pessoas antes de nos certificarmos das nossas prróprias falhas, logo que não somos infaliveis; sabermos perdoar as pessoas pelos erros; sabermos ser perdoados pelos erros que cometeremos; e o mais importante, não julgar as pessoas pelas palavras, mas pelas ações. Assim garantiremos vidas mais acertadas (e políticos menos falantes).

sábado, 2 de janeiro de 2010

Quero um porque para a juventude.

Olho meus porques sensatos.
Racional morreu de velho!
De esperar nascer o Sol.
Se procuro por ingrato,
Narciso, ja foi mais belo
Agora, já no formol.

Esperei por muito tempo
Por momentos passageiros
A fugacidade do jovem
A passagem do eterno
Soprou agora triste vento
Trouxe alegres galanteios
Os que ficam, que provem!
Cultos ao presente externo.

Mas que fique com paixões,
Deixe amores pra quem ama.
Pois não são merecedores,
Os apaixonados? Não.
Eles não querem razões,
Só instinto que os chama.
Depois, uma vida em dores
Procurando findada paixão.

Ficou na superfície,
Há muito se foi,
O que restou das paixões?

O quanto as palavras devem valer.




            É algo muito engraçado. Ou trágico, dependendo. O valor que atribuimos a certas palavras, o que deixamos de delegar a outras, tudo errado.
            A começar pela relação que se estabelece entre amizade (ou inimizade) e palavras. Por vezes, damos mais importância para uma crítica do inimigo, do que para o elogio de  um amigo.  Sabe-se lá porque. Você odeia o sujeito, mas o que ele te fala atinge com força, tal que se quer provar o contrário, e não existe viabilidade para tal.
            Também o momento em que se ouve e diz palavras. O estado emocional do falante (e do ouvinte). No momento de raiva, em que falamos coisas sem sentido, mesmo que para ferir, descontar, descarregar. E justo em quem mais amamos. Ou senão, no momento de confiança, que um simples "olá" da pessoa pretendida é esmiuçado e traduzido em intenções e esperanças, sendo que, nem sempre isso traduz a verdade.
            Não é fascinante, a diferença sutil (e abissal) que a intonação de uma expressão nos atinge de modos diferentes? Para isso, tomemos como exemplo uma passagem em um vídeo da internet, no qual, brilhantemente, Leandro Hassum e Marcius Melhem abordaram a questão do palavrão. Na ocasião, discutia-se a utilidade do "filho da puta". Em primeira instância, apresentavam-se dois amigos que não se viam há tempo. Um interpelava -"Seu filho da puta, quanto tempo!" e depois vinha um caloroso abraço. Em segunda análise, apresentava-se dois sujeitos num bar. Um acompanhado, o outro, só. De repente, o solitário faz um gracejo, e prontamente, o outro diz "Tira a mão, seu filho da puta, que a ´mulé´ tem dono". Não foi calorosa a reação do outro.
            Enfim. Acho importante atentarmos para esses tipos de análise. Às vezes, vale a pena reconsiderar situações em que a irracionalidade toma conta de quem fala, e depois, tentamos analisar de modo racional a atitude de tal. Nunca chegaremos a um consenso, a não ser que vejamos exatamente o que está por trás do que se diz, e não as palavras, propriamente ditas.

Expressão

Se eu não escrevesse,
Se não tivesse expressão,
Talvez fizesse algo como eu mesmo
Vegetar.

Pela expressão é que vivo,
Informo, deformo
Formo (opiniões)
Conformo (decisões)

Pela expressão é que sou,
Humano, comunicação
Aversão,
Diversão, divergência
Conflito e crescimento.

Talvez até o mais imbecil
De gritar algo inteligível
É homem, embora não-sapiente
Homo insipiens?
Homo sapiens.

Olhando para o que e quem cai.

            Olha, lá em cima! Um floco de neve caindo! Como tantos outros. É tão lindo, cada um, diferente. Por cima das cabeças, ao longe as diversas formas, triângulos, círculos e até cruzes, em flocos de neve, lindos. A beleza dos flocos me aquece o coração!
            Doce ilusão, caros amigos! Se essa beleza me mostrasse sua face real, sua falta de fundamento! Por que, a medida que me cubro dos flocos que aquecem o coração, pouco a pouco, esses flocos me roubam um pouquinho de calor, matam de frio, derretem e retornam, tornando-se frios e mortos, como sempre foram. A vida, quem atribui a eles fui eu. Vida que eles me tomaram, com o seu calor, de frio.
 
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