segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Tocar no contratempo

Numa breve explanação, contratempo é o espaço que existe entre um tempo e outro, em um compasso musical. É como uma sístole cardíaca, que fica entre duas diástoles. As melodias no contratempo precisam de bastante atenção, para serem apreciadas, bem como precisam de sensibilidade musical.


Em tempos mais remotos, os gênios musicais compunham melodias em contratempos e eram incompreendidos, pelo simples fato de fugirem à regra, à batida do tempo, estabelecida. Tempos depois, descobriu-se a magia por trás das melodias, antes descartadas, hoje, admiradas.

Mas o contratempo em questão é metafórico, remete, em particular aqui, a vanguarda, o avanço intelectual em relação ao tempo. É se libertar das correntes a que chamamos convenção, lugar-comum. O contratempo vem como uma proposta de liberdade intelectual, na medida em que foge da normalidade, ainda que um pouco, para mostrar que, nas entrelinhas de um texto, há espaço vago que podemos preencher. Que entre dois tempos, existe o contratempo.

Nada de extremismos, por favor. O contratempo só existe devido a própria existência do tempo. O próprio vocábulo é uma derivação por prefixação de "tempo". A questão é: nós devemos ficar atentos à rotina a que nos prendemos, observando a hora em que é válido e oportuno fugir da linha do compasso, pular entre dois tempos e encher de inovação, o ar da normalidade mórbida.

A melodia mais linda será tocada com tempos e contratempos, da capo al fine, uma mescla de bom-gosto e experimentação, classe e rebeldia. O contato do bom com o melhorado é uma obra-prima, na música e na vida.

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