domingo, 17 de junho de 2012

Boa noite, bom dia.

Boa noite, agora começa o meu dia. É neste breve espaço entre o deitar e o dormir, que pesa na balança da reflexão o que foi fato. É que, de fato, muito do que houve não foi, nem tampouco perpetuado será. Muito do que largamos pra trás, como o comprovante de pagamento do cartão. Certos momentos são somente uma dívida com o tempo. Juntamos recursos, pagamos e deixamos pra trás. Outras são presentes que o passado nos deu, e que levaremos para o futuro. A estes atribuimos o peso, no prato da balança da reflexão. É agora, entre o encostar no travesseiro e o entregar-se ao travesseiro que fixaremos o que ficará e descartaremos o que já quitamos como encargo de serviço. Aos pequenos prazeres que o hoje me proporcionou, até amanhã. E que para a posteridade, amanhã seja um ontem mais pesado de presentes, um passado mais digno de futuros! Bom dia!

Bem que poderia estar tudo bem.

Nossa, bem que poderia estar tudo bem. Estar confortável, sem nada na cabeça.. Estar sem esperar nada de ninguém, só num barco à deriva. Bem que poderia estar tudo sem rumo, sem precisar prestar contas. Sem precisar dar satisfações, fazer relatórios. Bem que poderia. Bem que está. Está tudo bem, se você quiser, não?

Foi você que fez?

O pai de santo não é santo, mas sabe como fabricar um, eu acho. O pedreiro não mora em casa prórpia, mas sabe como erguer uma. O artista mora em um barraco, mas dá estilo à sala do bom-vivant. O cozinheiro trabalha num restaurante francês, e chega com fome em casa. A babá educa o filho de Dona Ester, e recebe a quinta advertência por não comparecer na diretoria da escola do filho. A professora acaba de abraçar o aluno que ajudou a passar em Direito. E que em 5 ou 6 anos, ganhará em um mês mais do que ela ganhou esse ano. O garoto que fez seu tênis importado anda descalço na fábrica. Então, quando vier me reclamar de que fez o seu dever, certifique-se de que esteja fazendo ele por você e porque você quer chegar em algum lugar, e não porque eu pedi. No fim das contas você faz mais pelos outros a vida inteira do que faz por você em um simples momento.

Preto, da não-cor do céu de noite

Gostar dela é assim, preto, da não-cor do céu de noite. Afinal, preto é ausência de cor, mas mesmo assim, está lá. Eu enxergo o céu, mas ele não tem cor. Que tem cor são as estrelas e a lua. E mesmo assim, cores emprestadas, cores que já se apagaram. Gostar dela é assim. Eu gosto, mas naão faz sentido nenhum. Eu sei que gosto, mas não sei porque. Gosto das coisas que ela faz, e até mesmo do jeito como não sabe que eu existo. Ela me vê preto também, mas não da não-cor do céu. Ela me vê preto da não- cor do quarto de porta fechada, de luz apagada. Ela não me vê. O céu é preto, e eu enxergo o céu. Mas o quarto é preto, e ela só sabe o quê tem lá se esbarrar em alguma coisa, porque enxergar mesmo, não enxerga nada. Mas no fim, danaram-se os olhos, que ela tropeçou em mim no caminho pra dormir, e acabou sonhando comigo, preto da não-cor do céu, que está lá. Eu estive lá. Não-estando, mas ela estava comigo. E acordou azul, da cor do céu de dia! E eu nem sabia.

A excelentemente não-percebida sensação de não se estar apaixonado

A excelentemente não-percebida sensação de não se estar apaixonado: talvez a mais produtiva fase da vida, com sérios riscos de engorda, cachaçadas homéricas e ressacas compatíveis, trabalho que rende, faculdade que rende, sono razoavelmente em dia, pouco tempo pra pensar, pouco motivo pra reclamar da vida. Tudo o que dá no saco da gente está associado ao mais animalesco dos intuitos de ser: o de gostar de alguém do sexo oposto (pelo menos, a princípio, sem discussões de preferências, etc.). Estar apaixonado custa caro, faz mal pro coração, te deixa inútil, reclamão, suscetível a qualquer comentário inocente e burro pras questões lógicas. A razão é o caminho mais fácil pra quem é razoável, mas todos que estão apaixonados, por excelência, são estúpidos. E mesmo assim, tem coisa melhor do que essa estupidez? Estar certo e sozinho é bom, mas cansa. Tem hora que é bom estar errado, e ter alguém pra (de maneira muito sádica) te lembrar deste fato.

Quanto vale o seu silêncio?

Quanto vale o seu silêncio? Pode ser que você falando tudo o que pensa, que passe uma vida inteira sem dizer nada que preste. Mas quanto vale o seu silêncio? Vale a chance de uma boa idéia. A simples possibilidade de poder falar ao mundo, e com sorte ser ouvido. Se tudo, tudo mesmo der certo, será porque você disse e/ou fez alguma coisa. É difícil dar certo. É quase impossível. Mas mesmo contra as possibilidades. Olhe a sua volta, tudo quanto não for intrínseco da natureza. Tudo isso é resultado da reflexão, verbalização e/ou ação de alguém. Talvez de mais de uma pessoa. Provavelmente. Diante de todas as coisas que estão a sua volta, você realmente tem coragem de correr o risco? Tem coragem de privar o mundo da chance de você fazer algo que valha a pena? Não pague o preço pelo seu silêncio. Falar é de graça. Seu silêncio é que pode nos custar o-que-pode-vir-a-ser.

Verborragia

Se um balde está transbordando, ou tiramos água dele, ou ele derrama por si só. Acho que a mente da gente é como se fosse um balde embaixo de uma cachoeira.. Na maioria do tempo, não tem como desligar o fluxo de água.. E enche numa velociade impressionante. Então, se não achamos um jeito de aliviar esse excesso de idéias, elas saem de forma agressiva, com ímpeto, com violência. E acho que na maioria das vezes, é melhor darmos à essas idéias, a chance de serem ternas, a chance de cativar a atenção de alguém que valha a pena. E é por isso que eu escrevo. Acho que colocar tudo o que passa na cabeça ao alcance dos olhos e do entendimento alheio é uma boa chance de conquistar a atenção de alguém. Não sei se minhas idéias são boas, são cativantes. Mas nada me impede de colocá-las num outdoor e botar à prova. Seja pelo que for, deixo aqui minhas idéias. Coloco-as com suavidade sobre a estante, ao invés de atirá-las ao belprazer do ego. Tudo o que atiramos nas pessoas, sejam objetos ou idéias, serão atiradas de volta em nós. Para convencermos alguém do nosso ponto de vista, temos que ser maleáveis, saber escutar muito mais do que dizer, e respeitar a opinião do outro. Só assim você dá credibilidade aos seus argumentos, ainda que eles sejam falhos. Todo xiita ideológico é um imbecil, não porque esteja necessariamente errado, mas porquê não respeita a digestão de idéias do próximo. E sempre recorre à violência verbal, ou mesmo física para impor uma idéia. A estes, quero que todos eles se frustrem. Quantas vezes for necessário. Para perceberem que a gentileza, além de elegante, é eficaz.
 
Site Meter