domingo, 23 de dezembro de 2012

De um pai para um filho.

Menino, entenda que o mundo não quer que você seja inteligente, mas quer que você sempre queira ser feliz: pessoas burras e que anseiam pela felicidade são facilmente manipuláveis.

A verdade é que uma pessoa inteligente não precisa de títulos, notas ou medalhas, mas com certeza precisa saber de algumas coisas.

A primeira delas, é a mais básica: a inteligência não te levará a todos os lugares, pelo contrário. Quanto mais a sua visão de mundo se distanciar da visão medíocre, menos pessoas te compreenderão. E dessa forma, será mais difícil conviver, tanto pra ti, quanto para o outro. Porém, se você for arrogante, vai se isolar e se provará mais medíocre do que qualquer outra pessoa.

A segunda, é que a felicidade não é compreensível nem tampouco explicável. Felicidade é algo que se sente, e simplesmente se deixa acontecer, ou ser. Tentar explicar ou pior, tentar atingir a felicidade por métodos é ser fadado à tristeza. Pois a felicidade não é um prêmio e sim um estado de espírito, dado pelo caminho pelo qual se trilha a vida. Em contrapartida, também se deve lembrar que as pessoas que levam os aspectos práticos e lógicos com inteligência chegarão mais facilmente à felicidade, mesmo sem compreendê-la, pois sabem o momento de se emocionarem sem buscar maiores explicações: entregam-se às paixões e entendem seus amores.

A terceira é que as coisas passam. Quando tudo estiver muito bem, prepare-se para algo ruim que está por vir. E quando tudo estiver mal, prepare-se para a melhora da vida. Dessa forma, se aceita as situações com mais maturidade e serenidade, e se aprende que ser triste não é doença, e sim apenas mais uma parte da vida.

Ainda há muitas coisas, mas me limito a dizer apenas mais uma: quem é verdadeiramente inteligente, percebe que estamos todos presos à um sistema de exaustão que promete a felicidade que é inatingível, por meio do endeusamento daquilo que é inatingível: a perfeição estética, o dinheiro que compra tudo, o status que abre todas as portas. Esta é uma lógica ilusória, e uma vez que enxergada de fora te permite quatro possibilidades, basicamente:

1- Explorar a ignorência dos outros, sendo mais um a "vender felicidade".
2- Revoltar-se com tudo e assumir uma posição de contrariedade em relação a tudo o que vem do "sistema".
3- Ser indiferente.
4- Procurar fazer a sua parte, dentro de suas possibilidades, sem querer abraçar o mundo.

Inteligência permite compreender as coisas, mas não melhora nem piora o estado de espírito: se tiver de escolher com sabedoria, não queira somente ser inteligente, mas sempre preze por uma coisa que também não se compra: a consciência limpa.

É isso que te fará dormir tranquilo, e não a simples compreensão dos fatos.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Pensar?

Três aspectos: a coragem do ignorante, o receio do inteligente e a tranquilidade do consciente.

Pessoas ignorantes costumam ser corajosas, pelo simples fato de não necessitarem de causa para as coisas, e de tomarem suas decisões sempre baseadas na confiança em si mesmas. Elas podem falhar ou ter sucesso, mas certamente não saberão o porquê disso. E será que precisa?

Pessoas inteligentes, pura e simplesmente obcecadas pela lógica e pela explicação, quanto mais longe afundam-se nos porquês e nas razões, mais percebem que é impossível saber de tudo. Elas saberão lidar com a maioria das situações corriqueiras mas nunca estarão satisfeitas.. sempre estarão pensando os porquês, pesando medindo e perdendo excelentes oportunidades que pularão sem terem um porquê de acontecerem. Mas é tão ruim assim?

Por fim, pessoas conscientes, que procuram saber onde pisam, mas nem por isso são obcecados pelo cerne lógico das situações. Deixam-se levar pelas situações, sem deixarem de pensar nas horas em que se precisa desse discernimento. Porque o conhecimento é infinito, mas o essencial cabe no bolso.

E quem somos nós? Somos as três pessoas. O quanto somos felizes, reflete em que situação, dentre essas três acima estamos. E cada uma delas tem em si momentos em que são mais adequadas: a coragem, a desconfiança e a serenidade.

sábado, 24 de novembro de 2012

Antes de dormir



Estão passando rápido os dias
Mas as horas se arrastam pra acontecer
Porque a vida passa depressa
Pra quem não sabe quem é

E vive preso na rotina de tentar inovar
Pra trabalhar todo dia
Deixa o sossego do lar
Mas só diz que trabalha pra poder sossegar.

Que vida é essa onde perdemos a juventude pra ganhar o dinheiro
E em que depois gastamos todo esse dinheiro pra ser jovem de novo, sem conseguir
Que mundo é esse em que o que vale é o quanto se tem
Mas que se veste uma fantasia de fazer o bem, só pra se sentir alguém.
Por que é bonito um discurso carregado de bondades e curas
Mas ouvir não vai salvar a sua alma
De um inferno que não mora na morte distante e silenciosa
Mas mora no silêncio antes de dormir

domingo, 16 de setembro de 2012

Ausência


Você é uma ferida e uma dor
Ferida que não dói e
Dor que não fere
Porque a ferida não é em mim
Nem tampouco a dor
A ferida é um vazio
E a dor dói no nada, na ausência
E cura mesmo, é só preencher o vazio
Ou partir em busca de um novo vazio
Outra dor outra ferida.
Ou de um copo cheio.
Um remédio jogado no vazio.

sábado, 15 de setembro de 2012

Primeiro Sorriso

Borrado
Borrado
Não é possível ver nada
Não é possível entender nada

Respirar é difícil
E tudo que tenho é um cordão
Um laço que mantém vivo
E cortam

Cortaram o laço
Mas não conseguiram me separar
Do que poderia ser eu mesmo
Do que é eu mesmo

E quando a vejo,
dou um primeiro sorriso.

O primeiro sorriso.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O sentido da vida é a morte.


 A vida é um problema sem solução final. Não progride com a lógica do tempo, nem tampouco com alguma lógica encadeada. Se houver alguma lógica na vida, essa lógica é fragmentada, é detalhe e é extremamente flexível. O que a torna, pra efeitos de razão, ilógica.

Dentro dessa proposta, a morte é o sentido da vida. Por que é que temos vontade de fazer as coisas? Por que é que tentamos aproveitar ao máximo os momentos? É porque eles acabarão, é por que nossas chances irão acabar.

É a velha história do “só sentimos falta do que não temos mais”. E se há algo que, a todo momento temos, mas que deixamos de ter a cada segundo que passa, uma oportunidade de fazermos algo deixando de existir.

Já dizia Epicuro, em sua carta à Meneceu, “A morte não nos pertence, pois, uma vez que elá está presente, nós deixamos de existir, e já não nos apetece mais”. Então, à vida, o que se pertence. O tempo que temos é a vida.

Sorte não existe, existe oportunidade, e modos de aproveitá-las. O tempo que passou, já se foi, e só nos resta de recordações e lições. De resto, aproveite cada inspiração, seja do pulmão, ou do cérebro.

A vida é muito curta, e além disso, não nos pertence nada mais do que um nome em uma lápide.

A lembrança própria é nosso tesouro, e as lembranças que deixamos, o que nos pertence, após não pertencermos mais a nós mesmos.

sábado, 1 de setembro de 2012

Hoje


Hoje eu acordei romântico
Querendo te chamar pra ver o Sol nascer
E perder o nascer do Sol de olhos fechados te beijando
E ao invés de te dizer umas palavras bonitas
Te fazer rir com uma piada sem-graça
Ou com uma graça sem piada
Valeu um meio-sorriso

Hoje eu passei o dia pensando em você
E pensando em tudo o que você poderia pintar
No preto-e-branco dos cantos da minha vida
E mesmo monocromático
Eu faria umas cores improvisadas de palavras
Pintaria as bordas do seu sorriso de vermelho
E borraria o seu batom algumas vezes

Hoje eu fui dormir pensando
Em você pensar em mim, e talvez até sonhar
Afinal, eu já sei que gosto de você
E já sei com o que eu vou sonhar de noite
E de bobeira durmo abraçado no travesseiro
E acordo amanhã olhando pra ele e lembrando de você,
Achando que amanhã é hoje de novo... e de novo.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Descartável

Copo, guardanapo, prato, garfo e latinha
Garrafa, sacada e casa pré-fabricada
A roupa, o telefone, o momento, a fotografia


As pessoas

Qual é seu nome?
De onde veio?
O que quer da vida?

Me descarte e me deixe te descartar
Enquanto inflamos nossos egos juntos,
Seguimos sozinhos satisfazendo ao que se queira.

Mas satisfeitos?

domingo, 17 de junho de 2012

Boa noite, bom dia.

Boa noite, agora começa o meu dia. É neste breve espaço entre o deitar e o dormir, que pesa na balança da reflexão o que foi fato. É que, de fato, muito do que houve não foi, nem tampouco perpetuado será. Muito do que largamos pra trás, como o comprovante de pagamento do cartão. Certos momentos são somente uma dívida com o tempo. Juntamos recursos, pagamos e deixamos pra trás. Outras são presentes que o passado nos deu, e que levaremos para o futuro. A estes atribuimos o peso, no prato da balança da reflexão. É agora, entre o encostar no travesseiro e o entregar-se ao travesseiro que fixaremos o que ficará e descartaremos o que já quitamos como encargo de serviço. Aos pequenos prazeres que o hoje me proporcionou, até amanhã. E que para a posteridade, amanhã seja um ontem mais pesado de presentes, um passado mais digno de futuros! Bom dia!

Bem que poderia estar tudo bem.

Nossa, bem que poderia estar tudo bem. Estar confortável, sem nada na cabeça.. Estar sem esperar nada de ninguém, só num barco à deriva. Bem que poderia estar tudo sem rumo, sem precisar prestar contas. Sem precisar dar satisfações, fazer relatórios. Bem que poderia. Bem que está. Está tudo bem, se você quiser, não?

Foi você que fez?

O pai de santo não é santo, mas sabe como fabricar um, eu acho. O pedreiro não mora em casa prórpia, mas sabe como erguer uma. O artista mora em um barraco, mas dá estilo à sala do bom-vivant. O cozinheiro trabalha num restaurante francês, e chega com fome em casa. A babá educa o filho de Dona Ester, e recebe a quinta advertência por não comparecer na diretoria da escola do filho. A professora acaba de abraçar o aluno que ajudou a passar em Direito. E que em 5 ou 6 anos, ganhará em um mês mais do que ela ganhou esse ano. O garoto que fez seu tênis importado anda descalço na fábrica. Então, quando vier me reclamar de que fez o seu dever, certifique-se de que esteja fazendo ele por você e porque você quer chegar em algum lugar, e não porque eu pedi. No fim das contas você faz mais pelos outros a vida inteira do que faz por você em um simples momento.

Preto, da não-cor do céu de noite

Gostar dela é assim, preto, da não-cor do céu de noite. Afinal, preto é ausência de cor, mas mesmo assim, está lá. Eu enxergo o céu, mas ele não tem cor. Que tem cor são as estrelas e a lua. E mesmo assim, cores emprestadas, cores que já se apagaram. Gostar dela é assim. Eu gosto, mas naão faz sentido nenhum. Eu sei que gosto, mas não sei porque. Gosto das coisas que ela faz, e até mesmo do jeito como não sabe que eu existo. Ela me vê preto também, mas não da não-cor do céu. Ela me vê preto da não- cor do quarto de porta fechada, de luz apagada. Ela não me vê. O céu é preto, e eu enxergo o céu. Mas o quarto é preto, e ela só sabe o quê tem lá se esbarrar em alguma coisa, porque enxergar mesmo, não enxerga nada. Mas no fim, danaram-se os olhos, que ela tropeçou em mim no caminho pra dormir, e acabou sonhando comigo, preto da não-cor do céu, que está lá. Eu estive lá. Não-estando, mas ela estava comigo. E acordou azul, da cor do céu de dia! E eu nem sabia.

A excelentemente não-percebida sensação de não se estar apaixonado

A excelentemente não-percebida sensação de não se estar apaixonado: talvez a mais produtiva fase da vida, com sérios riscos de engorda, cachaçadas homéricas e ressacas compatíveis, trabalho que rende, faculdade que rende, sono razoavelmente em dia, pouco tempo pra pensar, pouco motivo pra reclamar da vida. Tudo o que dá no saco da gente está associado ao mais animalesco dos intuitos de ser: o de gostar de alguém do sexo oposto (pelo menos, a princípio, sem discussões de preferências, etc.). Estar apaixonado custa caro, faz mal pro coração, te deixa inútil, reclamão, suscetível a qualquer comentário inocente e burro pras questões lógicas. A razão é o caminho mais fácil pra quem é razoável, mas todos que estão apaixonados, por excelência, são estúpidos. E mesmo assim, tem coisa melhor do que essa estupidez? Estar certo e sozinho é bom, mas cansa. Tem hora que é bom estar errado, e ter alguém pra (de maneira muito sádica) te lembrar deste fato.

Quanto vale o seu silêncio?

Quanto vale o seu silêncio? Pode ser que você falando tudo o que pensa, que passe uma vida inteira sem dizer nada que preste. Mas quanto vale o seu silêncio? Vale a chance de uma boa idéia. A simples possibilidade de poder falar ao mundo, e com sorte ser ouvido. Se tudo, tudo mesmo der certo, será porque você disse e/ou fez alguma coisa. É difícil dar certo. É quase impossível. Mas mesmo contra as possibilidades. Olhe a sua volta, tudo quanto não for intrínseco da natureza. Tudo isso é resultado da reflexão, verbalização e/ou ação de alguém. Talvez de mais de uma pessoa. Provavelmente. Diante de todas as coisas que estão a sua volta, você realmente tem coragem de correr o risco? Tem coragem de privar o mundo da chance de você fazer algo que valha a pena? Não pague o preço pelo seu silêncio. Falar é de graça. Seu silêncio é que pode nos custar o-que-pode-vir-a-ser.

Verborragia

Se um balde está transbordando, ou tiramos água dele, ou ele derrama por si só. Acho que a mente da gente é como se fosse um balde embaixo de uma cachoeira.. Na maioria do tempo, não tem como desligar o fluxo de água.. E enche numa velociade impressionante. Então, se não achamos um jeito de aliviar esse excesso de idéias, elas saem de forma agressiva, com ímpeto, com violência. E acho que na maioria das vezes, é melhor darmos à essas idéias, a chance de serem ternas, a chance de cativar a atenção de alguém que valha a pena. E é por isso que eu escrevo. Acho que colocar tudo o que passa na cabeça ao alcance dos olhos e do entendimento alheio é uma boa chance de conquistar a atenção de alguém. Não sei se minhas idéias são boas, são cativantes. Mas nada me impede de colocá-las num outdoor e botar à prova. Seja pelo que for, deixo aqui minhas idéias. Coloco-as com suavidade sobre a estante, ao invés de atirá-las ao belprazer do ego. Tudo o que atiramos nas pessoas, sejam objetos ou idéias, serão atiradas de volta em nós. Para convencermos alguém do nosso ponto de vista, temos que ser maleáveis, saber escutar muito mais do que dizer, e respeitar a opinião do outro. Só assim você dá credibilidade aos seus argumentos, ainda que eles sejam falhos. Todo xiita ideológico é um imbecil, não porque esteja necessariamente errado, mas porquê não respeita a digestão de idéias do próximo. E sempre recorre à violência verbal, ou mesmo física para impor uma idéia. A estes, quero que todos eles se frustrem. Quantas vezes for necessário. Para perceberem que a gentileza, além de elegante, é eficaz.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Nada Inesperado

Prefiro suas desculpas às suas verdades...
Se escolhi conviver com você,
É por que posso suportar ambas,
E sinceramente, prefiro que seja criativo com suas mentiras
Do que convencido com suas meias-verdades...

Prefiro seu choro no ombro
Do que seu sorriso amarelo
E um quê de não quero que você saiba
Pois prefiro saber porque está triste
Do que não entender o por quê de um sorriso sem brilhos...

Prefiro uma manhã chuvosa
E a solidão de uma vidraça a me acordar
Do que dormir eternamente
E viver uma vida de sonhos sem porque
E não viver, nem morrer.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Caminhada

Era uma manhã de neblina. A metade da ponte precária que se estendia à frente evidenciava a existência de um outro lado, perdido nas brumas. Um homem de sobretudo caminhava em sua metade à vista da ponte, num devaneio particular qualquer que preenchesse seus quinze ou vinte minutos de caminhada até o seu estabelecimento. Seu passo era firme, disciplinado, quase militar, em reverência, talvez obediência à rotina.

Mas seu roteiro particular havia sido perdido na ruptura da ponte. A correnteza forte e as mazelas do tempo fizeram com que o caminho matinal de tantos “soldados de rotina" se interrompesse. E então, sem ter o que fazer, resolveu por bem tirar a manhã para caminhar um pouco.

Interessante notar que havia muitas coisas a serem notadas, que por vinte e três anos passaram despercebidas. Pequenos cafés elegantes, onde alguns faziam seu desjejum antes do trabalho. Casais que passeavam de mãos dadas, com a alegria que é pertinente à juventude que lhes rodeia, crianças brincando nas ruas, e velhas avós reclamando da vida e praguejando contra essa juventude física, que há muito deixou sua convivência.

Um organismo. Toda a beleza de uma rotina de vinte e três anos de inércia. O homem estava maravilhado com tudo aquilo que deixara de reparar durante estas caminhadas. O sol já se fazia presente, ainda com raios tímidos que deixavam as brumas, já raras, um tanto quanto brilhantes. E as nuvens tomavam sua consistência de todos os dias, dando àquele cinza, um tom de nostalgia, de elegância.

E em meio àquelas tantas pessoas de cujo nome nunca se soube, de tantas ruas, becos e vielas, de tantas árvores e das pedras da rua, uma praça, sem ninguém. Um banco para sentar-se um pouco e refletir sem o metrônomo dos passos a lhe distrair.
Um mendigo dormia próximo ao banco que escolhera para sentar. O banco mais conservado, menos surrado pelos intemperismos e pelos vândalos. E neste banco, depois de alguns minutos, o homem notou um calhamaço de escritos, já amarelado pelo tempo. Interessando-se por este detalhe, o homem folheou estas páginas. E nelas, uma história simples, de um homem normal, trabalhador.

Naquelas páginas, que mais pareciam um diário, lia-se a essência da insensibilidade humana, de um homem, que perde toda a sua vida na falta de senso entre os seres humanos. De boas intenções interrompidas dentro do desinteresse do mundo em acatá-las.

O personagem principal era um artista do além-mar que fazia sua arte em favor de sua comunidade. Ele pintava quadros e escrevia trovas. Ditava suas trovas em bares e bordéis, aplaudido por putas e boêmios de toda a cidade. Seu melhor amigo, um pianista da casa, acompanhava seus versos em melodias, algumas clássicas, outras com um groove novo, um tal ritmo americano. Tendo saído de casa cedo, aprendera a aproveitar seus dons por conta própria.

Mas não era fruto dos ambientes que freqüentava. O pouco dinheiro que lhe pagava, a ele e ao pianista, a parte que lhe cabia ia para ajudar os amigos da rua e do lar de idosos. Ele permaneceu neste lar por todas as tardes, sentado ao lado da cama de sua avó, escrevendo, conversando e as vezes, pintando, para diverti-la. E mesmo depois de sua partida, continuou a visitar o lar todos os dias, e de ajudar a mantê-lo, seja com algum dinheiro, ou mesmo varrendo o local, dando banho nos moradores.
Seus versos fizeram sucesso. Uma editora aceitara publicá-los e o sucesso que fizera dera a ele conforto. E então, depois de tantos anos, ele poderia realizar um sonho: tirar do prostíbulo sua companheira de tantos anos de boemia. A concubina mais graciosa. Estava em todos os lares em que homens habitavam, como sonhos inteiros, ou pitadas de fantasias. Muitos tentaram tira-la de lá, mas ela dizia que era aquela sua sina, e que pereceria saindo de lá, já que não saberia viver outra rotina senão a sua própria falta de rotina.

Nosso trovador, como todos os outros sonhadores, não conseguiram traduzir seus “onirismos” em fatos concretos, e desgostoso de ter que aceitar este fato, caiu na completa esbórnia.
Muitos anos passaram e, dessa forma, o bom homem tornou-se em trapos. Sua capacidade não era mais a mesma, e seu dinheiro se esvaia no mesmo fluxo em que seu copo se esvaziava. A concubina envelheceu, e, não tendo em si outras graças além das efêmeras, acabou por ficar no bordel trabalhando em serviços e casando-se com o pianista.

O jovem sonhador tornou-se em alcoólatra sem lar, embora ainda ajude de alguma forma a casa de repouso.

Nessa altura, o nosso homem trabalhador, olhou atônito para os papéis que estavam em sua mão. Acostumado aos romances folhetinescos que davam a seus personagens, fins concretos de sucesso ou de tragédia, o romance do trovador mostrava-se um incômodo. Sentia pena do pobre homem, que perdeu-se de um modo comum, e que apesar de seu bom coração, não havia conquistado um bom final.

O mendigo que dormia ao lado acordou e interrompeu seus pensamentos de pena pedindo-lhe uns trocados para a obra de Deus. E ainda absorto em sua pena pelos papéis, o homem desconversou e partiu pra casa, digerindo essa história inacabada.

Embora sensibilizado pela história, ele partiria amanhã para outro caminho que lhe levasse ao mesmo destino dos seus negócios, esquecendo-se das horas que passara lendo.

Ainda que quisesse o final feliz para seu personagem, o homem que saiu com o desejo de um melhor destino para aquele pobre sujeito não fora capaz de dar sequer uns trocados ao autor da obra que jazia naquele banco

O diário daquele mendigo que dormia ao seu lado.
 
Site Meter