domingo, 26 de setembro de 2010

#2

Outro da série sem rótulos. Pra começar, que “sem rótulo” é um rótulo. Mas deixemos essa pequena digressão de lado. Estou num carro, indo pra Campinas, voltando de um fim de semana totalmente atípico na medida em que saio dele sem impressões. Tá, isso é irrelevante. Mas é um bom pretexto pra começar a divagar.

Sinceramente, estou sem muitas inspirações pra aumentar o repertório desse espaço. Mas acho que a necessidade de colocar alguma coisa no papel (ou melhor, na tela), pra deixar fluir mais idéias, pra significar mais alguma coisa no dia de hoje. Acho que é esse ímpeto que me impediu de fechar o notebook e tirar um cochilo.

E sei lá, justamente o que se passa nesse fim-de-semana, esse grupamento de nada-em-cadeia, essa sucessão de coisas que não fizeram quase nenhuma diferença na vida. Me leva a pensar que busca idiota é essa de fazer cada minuto valer a pena. Claro, o valer a pena é relativo pra cada um. Se o referencial “zero” é o cotidiano, a vida vai tardar a valer. Mas se é a
vida em si, então qualquer dia trancado em casa, em silêncio é uma vitória a ser comemorada.

Convenhamos que essa última idéia é um tanto quanto conformista, na medida em que tudo é (parece) satisfatório. Mas também a exigência demasiada é prejudicial, na medida em que nada do que se faz parece bom o suficiente. O método de comparação dá margem a isso. Porque, isoladamente, sempre haverá alguém melhor do que você em qualquer aspecto.

Besta de mim, admito que eu faço parte do segundo grupo. Besta de mim, porque sinto que nenhuma vitória é boa o suficiente, nenhuma situação é satisfatória o bastante. Parece uma inquietação constante, querendo o que não se possui. Auto-afirmação constante, seja intelectualmente, socialmente, musicalmente, esportivamente, e o mais destrutivo, no que tange opinião.

Pior ainda, quando nem de perto se é o melhor em algo. O patamar mais temido pelo inquieto: a mediocridade. O constante estar na média, ser razoável em tudo, ser completamente coadjuvante de qualquer coisa. É o meu maior medo. Sinto que se você é ruim demais ou bom demais, há todo um realce, um destaque que segrega o destacado do mediocritas. As pessoas medianas tendem a se permutar e gerar mais pessoas medianas, e assim, com essa postura de destino, de aceitação de um futuro que não é seu, mas de algum desentendido que resolveu chamar-se destino. É a arma maior de anular vontades de vencer.

A postura que sempre nivela por baixo, a pessoa medíocre sempre pensa “há piores”, E eu nunca vou me conformar em fazer parte disso. Ok. Pode ser que eu já seja, pode não ser uma opção. Eu posso simplesmente ser alguém aquém das minhas ambições. Mas ambições, ah! como as tenho! Ah! Como as amo! Não sei se a ambição pode me levar para um patamar diferente do normal, mas juro que ela é a força motriz da minha vontade e aspiração de mudança.

Mas sei lá. Ainda não descobri a forma de não ser um grande e velado coadjuvante. A sensação constante de ser dispensável. A grande impressão de que sua existência no mundo é irrelevante. Não, não estou em depressão, nem tampouco pensando em me suicidar. Eu sou egoísta demais pra isso. Juro que, a despeito de toda a moral que nega isso, eu me amo! Pra mim, obvio que eu não sou coadjuvante, afinal sou astro diretor e produtor do constante filme que transpassa pelas minhas retinas. Em widescreen!

Mesmo assim, mesmo sendo a diferença pra mim, eu ainda sinto que para o resto do mundo, que eu sumisse amanhã, e ninguém ia notar a diferença. O mundo não seria um lugar mais triste por isso. Talvez menos crítico, mas definitivamente, não mais triste. E é por isso que eu to me questionando. Como é que eu posso fazer para fazer a diferença, pra ser levado a sério, pra ser relevante?

Hoje, no mundo, é difícil achar uma razão válida, uma bandeira sem máculas pra carregar, alem de qualquer avenida carnavalesca, pra longe aliás dessa expressão da alienação de qualquer outro ser humano que crê na própria importância, mesmo que seja completamente irrelevante.
Não posso dizer que nasci pra ser importante, mas com certeza posso dizer que eu nasci pra tentar. Nunca vou aceitar ser um qualquer sem lutar.

Hoje, eu sei que sou um qualquer, mas sei que no futuro, ou eu não serei, ou eu morrerei tentando. Deixe a simplicidade pra quem a aprecia. Eu quero é a erudição. E tenho dito.

Algumas pessoas são bonitas ...

Algumas pessoas são bonitas, outras não. Algumas pessoas são inteligentes, outras não. Algumas pessoas são simpáticas, outras, nem um pouco. E eu poderia ficar aqui dando exemplos por duas páginas sem repetir nada. Algumas pessoas sempre vão ser ou ter algo que outras não são, ou não tem. É normal. Somos diferentes, somos ímpares.

Observando a criação de cada um, temos moral familiar, religião, espaços sociais, amigos, ambiente estudantil, ambiente de trabalho, informação, consciência social. Tudo isso é diferente para cada um, e cada absorve isso de diferentes maneiras. A diferença entre uma e outra pessoa é muito, muito maior do que parece. Ela excede o campo do biológico, do plástico e vai para o contexto psicológico, comportamental.

O problema maior reside no fato de a maioria das pessoas serem influenciadas por um pensamento comum, uma cartilha, um referencial adotado. Referencial esse que preza muito mais algumas características do que outras. E isso gera uma anulação da importância das diferenças, gera uma padronização de características impraticável.

Pense: no início das civilizações, existiam relações de poder, existia sobreposição de um sobre outro, da vontade de um sobre o outro, das características de um sobre o outro. Como fazer para perpetuar esse domínio? Padronizando o conceito de bom, de superior. Se aquilo que tem a ver com você é considerado bom, concorda que as outras pessoas vão ter um padrão inatingível de sobressaliência.

O Brasil é uma incógnita nesses termos, porque temos tantas influências, tantos domínios que direta ou indiretamente nos afetaram, que esse padrão de sobressaliência é algo mais complexo, que abrange mais possibilidades do que qualquer outro no mundo. É justamente por isso que é comentado no Brasil existirem relativamente mais pessoas bonitas. Existem exemplares de todos os domínios, abrangendo mais “gostos”. Mas não somente o padrão estético.

Pense. Quais as matérias mais “fáceis” da escola? Claro que não é uma opinião constante, mas é bem difundida. As matérias de estudos sociais costumam ser mais fáceis. Porque o modo como fomos acostumados a pensar tange origens clássicas de surgimento da democracia, política, sociedade e cultura. Matérias de ciência e lógica como Matemática ou Biologia são mais “encrencadas” não porque sejam mais ou menos difíceis, mas porque nosso modo de pensar não foi acostumado com esse tipo de noção. Os mesmos pais das ciências sociais como Aristóteles, foram também importantes tributários das outras ciências, mas com um destaque, uma exaltação maior das aplicações imediatas e que permitissem aos poderosos teorizar e justificar os moldes de suas relações com os menos poderosos e entre si mesmos.

Daí,depreende-se que a massa fosse um peso importante nas decisões. Como fazer para que a massa aderisse ao modo segregacionista de pensar? Através do poder, estabelecer padrões inatingíveis para que ela persiga a vida toda. É simples, o líder sábio vai justificar o próprio poder pelas próprias capacidades e vai impor a forma de pensamento. Se o líder disser que o raciocínio lógico é um malefício, as pessoas não irão ter raciocínio lógico. Assim não irão ter capacidade de estabelecer relações a ponto de poderem questionar a característica equivocada do poder.

E é por isso que aqueles que pensam são segregados, considerados ameaças. Porque eles ameaçam quem manda. São eles filósofos como Sócrates, que pelos seus questionamentos de ironia e maiêutica, foi condenado à morte (e matou-se antes que o fizessem cumprir). Ou os alquimistas, cientistas que eram jogados no fogo redentor da inquisição. Ou os iluministas, frente ao absolutismo. Ou os nobres, frente os iluministas. Danton foi morto por Robespierre, mesmo sendo um partilhador da filosofia e poder, porque questionou seu método sanguinário de poder. Hitler matou judeus e outras minorias, foi radical no que tange padrões: ele quis limpar os padrões alternativos literalmente. E matou muitos nazistas na noite de longos punhais, para não ter disputas ou questionamentos. Stalin repetiu praticamente a mesma conduta. Os americanos fizeram a “Caça às Bruxas”, alusão obvia ao processo medieval, só que com os equivalentes socialistas.

Atualmente, nos encontramos numa época do capital, da tecnologia, dos avanços, da ciência voltada para o desenvolvimento (e para o aprofundamento das diferenças entre pessoas, nações e culturas). As maiores economias do mundo mandam nos preceitos que regem o pensamento da massa populacional. E todos estão convencidos que as liberdades individuais são mais respeitadas do que antigamente. Mentira!

Daqui a 50 anos, vão nos estudar e ver as mesmas coisas que vimos nas outras civilizações. Que nós não enxergamos por estarmos imersos em todos os preceitos e filosofias pré-estabelecidas pelo poder vigente.
E é por isso que temos uma população de 95% de pessoas que não falam inglês, e 70% das músicas que tocam em nossas rádios são em inglês. Bebemos Coca-cola, usamos Nike e Adidas (Ger), Computadores da Hewlett-Packard com processadores Intel, Usamos perfume Carolina Herrera e Giorgio Armani (ambos com sedes corporativas em NY), Bebemos Johnnie Walker (Sco), Absolut (Swe), Jack Daniels (Eua). Não preciso exemplificar tanto, todos já entenderam a mensagem.

As belezas-padrão e recorrentes são os olhos claros, os seios fartos, a cintura inexistente e o quadril vasto. Ou para exemplares masculinos, a altura, a força, definição muscular. A inteligência é banalizada. A crítica é banalizada. Existem aspectos velados que são intocáveis. E sempre vai ter o crítico que vai vir me dizer que há outras mulheres e outros homens em Hollywood. Mas estamos jogando com padrões, não com exceções. A grande maioria segue sim, os padrões.

E não seja hipócrita de negar que beleza faz, sim, diferença. Não é culpa de quem pensa. É arraigado na cultura, somos bombardeados com esse conceito o tempo todo. Desde crianças, somos selecionados por esses conceitos (por outros também). Nossa adolescência é marcada por imagens de pessoas, os atores e as atrizes, as modelos, muito mais do que por qualquer líder político. As relações amorosas são sim, muito mais freqüentes e possíveis se sendo bonito dentro dos padrões estabelecidos.

As pessoas inteligentes também são selecionadas desde pequenos. Mas reflita, numa sociedade que teme pelo questionamento do estabelecido, a pessoa inteligente vai ter essa característica plenamente valorizada? Claro que não. E as pessoas que não o são vão, com certeza enfraquecer a crítica. Porque é que existem alcunhas como “nerd, “CDF”, “geek”? Porque de alguma maneira, tem de se desmerecer, tem de se desvalorizar aquele que se esforça para ter informação. Porque, uma vez que a pessoa tenha uma visão mais bem fundamentada do que as outras, ela está num patamar superior de compreensão e, por extensão de controle. Mas até ai, tem que ir contra uma correnteza de controlados pelo estabelecido.

Daí temos o conflito de idéias entre poder estabelecido e poder emergente. Entre líderes e aspirantes. E quem vencer terá o direito de se estabelecer, e mais importante, de ditar para a massa o que eles devem fazer para serem controlados de maneira pacífica.

Enquanto isso, para entreter a massa longe das disputas de poder, damos um patamar inferior de poder à algumas pessoas, para que se persiga esse tipo de valor. Porque as pessoas são exaltadas pela beleza, ou pelo esporte, ou pela arte sem crítica? Porque isso não é ameaça para o poder. E todos almejam serem bonitos, atletas e cantores de música pop, menos pessoas disputarão o real controle. Por isso você um dia na sua vida já sonhou em ser um astro pop (leia-se: pop internacional, sertanejo, pagode, axé, pop rock...), um atleta de renome. Repare bem, são poucos, são uma porcentagem ridícula das pessoas que tentam que conseguem destaque nessas áreas. E mais importante, por duas vias principais: talento inato exorbitante, ou muito investimento.

Não pense que Justin Bieber ou Luan Santana estão onde estão por talento. Os pais de ambos investiram, e muito pesado para tê-los onde estão. Mas também temos Michael Schumacher, que era mecânico da equipe, mas era genial e conseguiu seu destaque, em um meio onde patrocino é 90% do negócio.

Mas veja bem, são disputas de vencer pessoalmente, não coletivamente. Afinal, todas as vitórias são pessoais. Sinceramente, até as mudanças de poder são disputas de ego. Porque a massa não escolhe seus líderes. As grandes viradas são feitas através da massa, mas não pela vontade dela. A massa não tem vontade. A massa é influenciada a querer. Os líderes fazem parte da massa. Ninguém é isento da influência, porque não existe uma liderança absoluta. Quem manda no mundo é uma intersecção de vários conjuntos de poder que se influenciam mutuamente. Por isso retorno às marcas. Garanto o que for que se você olhar as marcas do que você usa, teremos vários países de origem. As músicas que você ouve são de vários países. Os filmes que você vê, nem tanto.. Mas ainda assim.

No fundo, escrevi isso tudo só pra pensar. Eu não estou me excluindo desse âmbito de pessoas que usa coisas de marcas de países capitalistas, que sonha em ser um artista de destaque, que gostaria muito de ser lindíssimo, de namorar uma menina lindíssima. Não é só isso que conta pra mim, mas também essa forte influência que vem do poder faz parte de mim, como de todos, independentemente de classe ou gênero. Ao contrário do que uma grande amiga minha me diz, eu não me acho melhor do que ninguém. Somente mais sincero, mais aberto no que tange o que eu realmente acho das coisas. E se isso pra ela é arrogância, pra mim, juro que é simplicidade.

Fazemos muitas coisas que sabemos ser erradas, mas nem por isso, deixaremos de fazê-las algum dia. Ser influenciado por essa padronização nunca foi uma opção. Mas enquanto eu compreendo parcialmente o processo, não me sinto um hipócrita escrevendo ou falando a respeito. Vai que existe alguém muito mais esperto e forte de espírito que eu, que compreenda e consiga se libertar disso tudo. Vai de presente à esse indivíduo como um estimulo.

Estou publicando porque gosto de difundir minhas idéias. Se você não gosta, é só não entrar no meu blog, assim, nunca vai se decepcionar com o que eu escrevo ou penso!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

#1

Cada texto é como um artesanato. Alias, deixemos a comparação de lado. Cada texto é literalmente um artesanato. Não gosto de parnasianos, mas tenho que copiá-los em certas máximas. Máximas de “profissão de fé”, “ourives” e outros preciosismos. O texto, o verdadeiro escrito, é uma expressão, extensão e imagem do autor. Não se preza pela simplicidade, nem tampouco pela erudição. Tão somente é a sinceridade, a clareza com que se transpassa as particularidades de cada um por meio do grafite que se descama e adere na superfície celulósica. Tá, exagerei, viajei um bocadinho..


Mas como toda expressão artística que se vê tem isso, um quê de arte, individualismo, inovação e personalidade. E dessa expressão, vem o reconhecimento, o novo e surpreendente. Mas seres humanos que somos, temos a mania de rotular, de padronizar, de criar mapas do caminho. Uma coisa é aprender. Todos aprendem o básico e depois trilham o próprio caminho. Mas alguns, ao invés de ganharem autonomia, dependem de toda inovação dos mestres pra continuar a crescer, tornam-se copistas, meros repetidores da técnica alheia.

E é disso que sofremos hoje. As críticas dos pseudo-intelectuais de hoje dirige-se aos lugares-comuns da cópia e da falta de autonomia. As bandas, os escritores, os programas, seguem um padrão, uma cartilha do sucesso que torna tudo massificado. Todo o entretenimento é previsível, você já sabe do que vai rir, já sabe as piadas que serão contadas, você vai rir delas porque não há outras, sem que se procure. Debaixo dos holofotes, estarão as mesmas coisas, as mesmas correntes que não te permitem sair da mediocridade.

Peço desculpas pela comparação esdrúxula que eu vou fazer, mas ela é a chave de todo esse texto. É como vinho. O bom vinho é caro, é difícil da achar, é artesanal, e infelizmente, costuma ser importado. Por outro lado, grandes fábricas padronizam o processo de produção, tiram sua individualidade e massificam o paladar, o” bom-gosto”. O bom texto é assim também. É daqueles artesanais, sem rótulo nem marca, só esperando ser aberto pra se apreciar. O que importa não é a garrafa, se todo mundo a conhece, mas se o paladar vai ser agradável. E eu escrevi toda essa ladainha, só par dizer que vou passar um tempo sem colocar títulos nos meus textos. Não vai ter rótulo, só o paladar.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Insípido

Não sou mais do que se vê

Não uma surpresa agradável ou um inesquecível de ofício

Apenas eu.

Simplório no ser, ter e tentar

As vezes anseios pelo que eu nunca tive

Ou sonhos com o que nunca se saberá.

Mas os pensamentos são somente seus

Já o que se vê é patrimônio da luz,

E ela a distribui a quem queira.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Gênio?

Até onde a genialidade vem do núcleo ou da mitocôndria? Em uma breve explanação, o núcleo celular é o local do material genético, logo, contendo as informações todas que vêm antes da nascença. O código genético é algo que define as características congênitas do ser originado. Já a mitocôndria é a fonte de energia da célula, local onde, em suma, o substrato energético provindo da alimentação é oxidado para formar ATP, que é o combustível do trabalho celular. Aqui, estamos desconsiderando o fato de a mitocôndria ter também em seu interior DNA circular. Para fins didáticos da metáfora, obviamente.

Bom, todo esse imenso rodeio foi apenas uma introdução “bacaninha” para levantar a questão principal: até onde a genialidade é algo que nasce com o ser humano, um dom divino, uma decorrência natural. Ou até onde essa genialidade é fruto do esforço de cada um, do merecimento e da técnica adquirida.

Albert Einstein certa vez disse “Sucesso e genialidade são 10% inspiração e 90% transpiração”. O mesmo Einstein era considerado retardado mental em sua época escolar, e escreveu seu artigo vencedor do Prêmio Nobel aos 23 anos. Ainda assim, não se consegue dizer que Einstein era um cientista exclusivamente dedicado à sua capacidade genial. Havia nele algo que não há em pessoas comuns. E não há ainda uma explicação aparente pra isso.

Também hoje, em diversos âmbitos, como na música, na arte, na ciencia, crianças que conseguem uma capacidade assustadora de assimilar informações e executar ações de forma inexplicavel. Fatos esses que independem da imaturidade biológica que o inteligir costuma exigir.

Claro que toda genialidade pode ser trabalhada, mas será que todo trabalho pode ser convertido em genialidade?

Hoje, eu vou preferir ficar com o benefício da dúvida.

Hábitos Correlacionados

Tenho estado cansada, e não me surpreenderia se você me dissesse o mesmo. Cansada desse vaivém cotidiano, essa presa incansável de não poder se cansar. A correria do dia-a-dia vem influenciando cada vez mais nas atitudes e no relacionamento interpessoal, pessoas apressadas estão diretamente ligadas à pessoas estressadas e impacientes, o que, de modo algum, é benéfico, seja no trabalho, na escola, na família ou no amor.
Essa pressa muitas vezes faz-nos esquecer do quão importante é a calma nas nossas ações – e reações -, do quão essencial é estarmos sempre conscientes do que estamos fazendo e tranqüilos em relação a isso, o que vem se tornando cada vez mais impossível. Ações inconscientes estão diretamente ligadas a arrependimento, o que também vem se tornando cada vez mais freqüente.
Arrependimento, estresse e impaciência não estão, absolutamente, ligados à felicidade, então podemos refletir e concluir que a pressa pode não nos beneficiar, mas é a “virtude” mais requisitada nos tempos modernos, afinal, pessoas que agem calmamente e conscientemente são, definitivamente, abomináveis. A pressa não só é inimiga da perfeição, mas também da felicidade, hábitos que vem se perdendo na atualidade.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Autopsicografia - Fernando Pessoa

Nunca publiquei aqui nada que não fosse meu. Os textos que não são meus, minhas amigas e colaboradoras que publicaram por elas mesmas são responsáveis. Mas eu não poderia deixar de lado, num espaço que é meu cantinho de expressão, mostrar a poesia que me influenciou a escrever. Do mestre Fernando Pessoa, Autopsicografia.


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Não Tenho Preço!

Já deixou de ser uma questão de entender. Ou mesmo de aceitar. A questão que paira agora é deixar pra trás. É uma questão curiosa, até mesmo irresoluta, na medida em que toda renúncia é uma partida.


Reflita por um momento. Uma incapacidade é um peso morto sempre? Ser incapaz de fazer algo é um demérito? Não, não creio que seja. Até porque existem muitas coisas que não devem ser feitas, sendo a incapacidade de fazer isso essencial.

Mas, da boca de Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. Existem sim incapacidades, insuficiências e incompetências que vem para mal. E frente a tamanha hipocrisia que se estabelece na humanidade hoje, me faço ouvir apenas por essas palavras, Deus há de ver.

O grande problema é essa coisa do escrachar o politicamente correto. Tudo tende ao equilíbrio. Ser (de uma maneira mecânica e forçada) politicamente correto o tempo todo não é legal. Inibe várias possibilidades de mudança, de melhora que poderiam vir-a-ser pelo meio da insatisfação, da inquietude.

A verdade é que hoje, todos somos falsamente confortadores, e o conforto não é algo produtivo (no sentido menos capitalista que você encontrar). Me refiro à produtividade para a vida, de agir para a própria ascensão, de não desistir de querer ser algo. Porque hoje, nossos amigos, nossa família, tudo tende a nos manter nessa bolha de plástico e ar chamada conforto, conformismo.

Se você não é o melhor, te dizem isso da forma mais leve possível; se você faz algo errado, minimizam; se segue as tendências da massa, te dão um biscoito. Caramba! Diga-me se eu estiver errado, me reprima se eu sair da linha, se eu não for bom o suficiente, me critique. Porque aí, eu posso mudar, eu posso perceber, eu posso melhorar e me tornar uma pessoa mais válida.

Falta de crítica e de senso crítico gera algo deprimente: efluxo de idéias medíocres. Se não há um “semancol” prático para o que se diz/faz, todos jogam merda no ventilador, e o perfume que é lançado nunca conseguirá superar esse fedor intelectual. O fato de eu estar escrevendo mostra isso. Eu mesmo não sou o escritor genial e inovador de que precisamos, sou apenas um crítico, e dos mais chinfrins, mas mesmo assim, não estou me referindo a mim nesse pequeno trecho.

O maior problema é: a massificação da informação. Sejamos francos, as pessoas são diferentes. Sejamos francos, em cada âmbito, existem, sim pessoas melhores que as outras. É hipocrisia achar que todos somos iguais. Porque eu posso falar que fulano é melhor que beltrano no futebol, posso dizer que Maria é mais bonita do que Ana, mas não posso dizer que Chico Buarque é melhor que Restart? Porque é uma questão de massificação de informação. A horda de ignorantes que reina hoje no mundo já está acostumada a discernir pessoas por jogar futebol ou por terem simetria facial e físico bem-trabalhado. Mas não conseguem compreender a crítica e a profundidade semântica-melódica de um Chico Buarque. Mas os coloridos do Restart ou as “Barraqueiras” do funk são perfeitamente compreendidos (afinal, não há o que se compreender!). Aí as pessoas não querem se sentir menos que as outras e segregam esse tipo de cultura, taxando-a (e a quem gosta) de arrogante. É a diferença entre Crepúsculo e Nietzcshe, a diferença entre Deja Vù e Debussy, a diferença entre Carl Sagan e Xuxa.

O pior é, para se incluir socialmente, as pessoas menos ignorantes aceitam esse tipo de bestificação cultural. E para as pessoas que lideram isso é um banquete real com sobremesa. Pessoas que não compreendem complexidade não conseguem pensar de maneira complexa, ou seja, são facilmente manipuláveis. E é interessante para os líderes controlar. Então, os lideres fazem o quê?

Ridicularizam o salário de professores, tornam a programação de TV aberta um lixo conceitual, promovem expressões culturais conservadoras (que visam manter a situação como algo bom), inibem o humor (que desde a Grécia antiga é a expressão viva da crítica), dão subsídios e bolsas que tem duas facetas: não permitem ascensão sócio-cultural, porém não permitem queda na qualidade de vida das populações carentes, de modo que aparentam ser uma solução inovadora e paternalista. Dão, com dinheiro público migalhas do que desviam do povo e com essas migalhas, se mantém embasados no povo que exploram. Isso não é Brasil, isso é Mundo.

Porque os EUA, por piores diplomaticamente que sejam, são ainda o país mais poderoso do mundo? Porque desde o século XVIII, quando inicia sua existência, esse país tem bases sólidas no que tange a crítica e a participação do povo na política. Os americanos podem ser ignorantes, alienados seja o que for, mas todos SABEM o que se passa em seu país. Existe “maracutaia” política lá? Claro. Mas se o povo fica sabendo, a punição é exemplar. Quando se é autuado, todo policial diz por que se está sendo preso, citando o ARTIGO da constituição que foi infringido. Os cidadãos sabem seus direitos, deveres e domínios. A cultura intelectual é bem, o esporte é bem, a produção científica é bem, a saúde é bem. E todas essas áreas têm investimentos sólidos e cobrança de resultados.

A maioria das pessoas não sabe o que é política. No Brasil, política é associada simplesmente a assumir um cargo de administração estatal e entrar par ao esquema e corrupção. Só que da origem da palavra (Assunto da Pólis = Cidade/Estado), a política é nada mais nada menos do que o assunto do cidadão, a discussão em torno do papel, dos direitos, do dever e do cotidiano de um cidadão inserido em uma sociedade. Frente a isso, percebemos que a massa não era cidadã na Grécia, e que somente a elite aristocrática era considerada politizada e passível de praticar a política. Hoje, as coisas se articulam de tal maneira que é a massa que se considera incapaz de praticar política. E os “corajosos” que se arriscam, ou são das ciências sociais, ou são políticos que cedem à facilidade de se estar no comando da horda bestial de manobra. Comprovação disso é perguntar pras pessoas se elas gostam de política. A resposta mais freqüente costuma ser um não veemente associado à algum comentário como “ é algo nojento, sem princípios”. Agora, pergunte à esse gênio mediano se ele sabe o quê é política.

Outro conceito deturpado é o da democracia (demos = sabedoria/ cratos = governo, liderança). Como os cidadãos da Grécia antiga eram apenas os mais abastados e que tinham condições de se dedicar à prática intelectual, eles criaram o conceito de Democracia, dizendo que as decisões deveriam ser de todos os cidadãos, visto que eles eram os mais sábios, em conjunto (lembre-se, cidadão, naquela época eram somente os mais ricos). Então, hoje, como, na teoria todos somos cidadãos, a democracia se estende a todos nós, sem considerar se realmente essa população tem a sabedoria inerente do termo empregado. Hoje, vivemos a “alienocracia”, o estilo de governo que é ditado pela massa alienada pelos preceitos “emburrecedores” provindos das camadas superiores do poder.

Chegamos então ao ponto: como mudar isso? Deixando de elitizar o conhecimento. Deixando de ser tão complacentes com a mediocridade. Remete ao início desse texto. Vamos criticar, não vamos nos conformar com o que está aqui. É uma luta onde vamos morrer tentando, mas não vamos morrer na praia. Talvez, no futuro, nossos descendentes possam viver o áureo da democracia, um real governo integralmente da sabedoria e do povo. Como diria a filósofa Dóri, “Continuem a nadar!”
 
Site Meter