Era uma manhã de neblina. A metade da ponte precária que se estendia à frente evidenciava a existência de um outro lado, perdido nas brumas. Um homem de sobretudo caminhava em sua metade à vista da ponte, num devaneio particular qualquer que preenchesse seus quinze ou vinte minutos de caminhada até o seu estabelecimento. Seu passo era firme, disciplinado, quase militar, em reverência, talvez obediência à rotina.
Mas seu roteiro particular havia sido perdido na ruptura da ponte. A correnteza forte e as mazelas do tempo fizeram com que o caminho matinal de tantos “soldados de rotina" se interrompesse. E então, sem ter o que fazer, resolveu por bem tirar a manhã para caminhar um pouco.
Interessante notar que havia muitas coisas a serem notadas, que por vinte e três anos passaram despercebidas. Pequenos cafés elegantes, onde alguns faziam seu desjejum antes do trabalho. Casais que passeavam de mãos dadas, com a alegria que é pertinente à juventude que lhes rodeia, crianças brincando nas ruas, e velhas avós reclamando da vida e praguejando contra essa juventude física, que há muito deixou sua convivência.
Um organismo. Toda a beleza de uma rotina de vinte e três anos de inércia. O homem estava maravilhado com tudo aquilo que deixara de reparar durante estas caminhadas. O sol já se fazia presente, ainda com raios tímidos que deixavam as brumas, já raras, um tanto quanto brilhantes. E as nuvens tomavam sua consistência de todos os dias, dando àquele cinza, um tom de nostalgia, de elegância.
E em meio àquelas tantas pessoas de cujo nome nunca se soube, de tantas ruas, becos e vielas, de tantas árvores e das pedras da rua, uma praça, sem ninguém. Um banco para sentar-se um pouco e refletir sem o metrônomo dos passos a lhe distrair.
Um mendigo dormia próximo ao banco que escolhera para sentar. O banco mais conservado, menos surrado pelos intemperismos e pelos vândalos. E neste banco, depois de alguns minutos, o homem notou um calhamaço de escritos, já amarelado pelo tempo. Interessando-se por este detalhe, o homem folheou estas páginas. E nelas, uma história simples, de um homem normal, trabalhador.
Naquelas páginas, que mais pareciam um diário, lia-se a essência da insensibilidade humana, de um homem, que perde toda a sua vida na falta de senso entre os seres humanos. De boas intenções interrompidas dentro do desinteresse do mundo em acatá-las.
O personagem principal era um artista do além-mar que fazia sua arte em favor de sua comunidade. Ele pintava quadros e escrevia trovas. Ditava suas trovas em bares e bordéis, aplaudido por putas e boêmios de toda a cidade. Seu melhor amigo, um pianista da casa, acompanhava seus versos em melodias, algumas clássicas, outras com um groove novo, um tal ritmo americano. Tendo saído de casa cedo, aprendera a aproveitar seus dons por conta própria.
Mas não era fruto dos ambientes que freqüentava. O pouco dinheiro que lhe pagava, a ele e ao pianista, a parte que lhe cabia ia para ajudar os amigos da rua e do lar de idosos. Ele permaneceu neste lar por todas as tardes, sentado ao lado da cama de sua avó, escrevendo, conversando e as vezes, pintando, para diverti-la. E mesmo depois de sua partida, continuou a visitar o lar todos os dias, e de ajudar a mantê-lo, seja com algum dinheiro, ou mesmo varrendo o local, dando banho nos moradores.
Seus versos fizeram sucesso. Uma editora aceitara publicá-los e o sucesso que fizera dera a ele conforto. E então, depois de tantos anos, ele poderia realizar um sonho: tirar do prostíbulo sua companheira de tantos anos de boemia. A concubina mais graciosa. Estava em todos os lares em que homens habitavam, como sonhos inteiros, ou pitadas de fantasias. Muitos tentaram tira-la de lá, mas ela dizia que era aquela sua sina, e que pereceria saindo de lá, já que não saberia viver outra rotina senão a sua própria falta de rotina.
Nosso trovador, como todos os outros sonhadores, não conseguiram traduzir seus “onirismos” em fatos concretos, e desgostoso de ter que aceitar este fato, caiu na completa esbórnia.
Muitos anos passaram e, dessa forma, o bom homem tornou-se em trapos. Sua capacidade não era mais a mesma, e seu dinheiro se esvaia no mesmo fluxo em que seu copo se esvaziava. A concubina envelheceu, e, não tendo em si outras graças além das efêmeras, acabou por ficar no bordel trabalhando em serviços e casando-se com o pianista.
O jovem sonhador tornou-se em alcoólatra sem lar, embora ainda ajude de alguma forma a casa de repouso.
Nessa altura, o nosso homem trabalhador, olhou atônito para os papéis que estavam em sua mão. Acostumado aos romances folhetinescos que davam a seus personagens, fins concretos de sucesso ou de tragédia, o romance do trovador mostrava-se um incômodo. Sentia pena do pobre homem, que perdeu-se de um modo comum, e que apesar de seu bom coração, não havia conquistado um bom final.
O mendigo que dormia ao lado acordou e interrompeu seus pensamentos de pena pedindo-lhe uns trocados para a obra de Deus. E ainda absorto em sua pena pelos papéis, o homem desconversou e partiu pra casa, digerindo essa história inacabada.
Embora sensibilizado pela história, ele partiria amanhã para outro caminho que lhe levasse ao mesmo destino dos seus negócios, esquecendo-se das horas que passara lendo.
Ainda que quisesse o final feliz para seu personagem, o homem que saiu com o desejo de um melhor destino para aquele pobre sujeito não fora capaz de dar sequer uns trocados ao autor da obra que jazia naquele banco
O diário daquele mendigo que dormia ao seu lado.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
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