Algumas pessoas são bonitas, outras não. Algumas pessoas são inteligentes, outras não. Algumas pessoas são simpáticas, outras, nem um pouco. E eu poderia ficar aqui dando exemplos por duas páginas sem repetir nada. Algumas pessoas sempre vão ser ou ter algo que outras não são, ou não tem. É normal. Somos diferentes, somos ímpares.
Observando a criação de cada um, temos moral familiar, religião, espaços sociais, amigos, ambiente estudantil, ambiente de trabalho, informação, consciência social. Tudo isso é diferente para cada um, e cada absorve isso de diferentes maneiras. A diferença entre uma e outra pessoa é muito, muito maior do que parece. Ela excede o campo do biológico, do plástico e vai para o contexto psicológico, comportamental.
O problema maior reside no fato de a maioria das pessoas serem influenciadas por um pensamento comum, uma cartilha, um referencial adotado. Referencial esse que preza muito mais algumas características do que outras. E isso gera uma anulação da importância das diferenças, gera uma padronização de características impraticável.
Pense: no início das civilizações, existiam relações de poder, existia sobreposição de um sobre outro, da vontade de um sobre o outro, das características de um sobre o outro. Como fazer para perpetuar esse domínio? Padronizando o conceito de bom, de superior. Se aquilo que tem a ver com você é considerado bom, concorda que as outras pessoas vão ter um padrão inatingível de sobressaliência.
O Brasil é uma incógnita nesses termos, porque temos tantas influências, tantos domínios que direta ou indiretamente nos afetaram, que esse padrão de sobressaliência é algo mais complexo, que abrange mais possibilidades do que qualquer outro no mundo. É justamente por isso que é comentado no Brasil existirem relativamente mais pessoas bonitas. Existem exemplares de todos os domínios, abrangendo mais “gostos”. Mas não somente o padrão estético.
Pense. Quais as matérias mais “fáceis” da escola? Claro que não é uma opinião constante, mas é bem difundida. As matérias de estudos sociais costumam ser mais fáceis. Porque o modo como fomos acostumados a pensar tange origens clássicas de surgimento da democracia, política, sociedade e cultura. Matérias de ciência e lógica como Matemática ou Biologia são mais “encrencadas” não porque sejam mais ou menos difíceis, mas porque nosso modo de pensar não foi acostumado com esse tipo de noção. Os mesmos pais das ciências sociais como Aristóteles, foram também importantes tributários das outras ciências, mas com um destaque, uma exaltação maior das aplicações imediatas e que permitissem aos poderosos teorizar e justificar os moldes de suas relações com os menos poderosos e entre si mesmos.
Daí,depreende-se que a massa fosse um peso importante nas decisões. Como fazer para que a massa aderisse ao modo segregacionista de pensar? Através do poder, estabelecer padrões inatingíveis para que ela persiga a vida toda. É simples, o líder sábio vai justificar o próprio poder pelas próprias capacidades e vai impor a forma de pensamento. Se o líder disser que o raciocínio lógico é um malefício, as pessoas não irão ter raciocínio lógico. Assim não irão ter capacidade de estabelecer relações a ponto de poderem questionar a característica equivocada do poder.
E é por isso que aqueles que pensam são segregados, considerados ameaças. Porque eles ameaçam quem manda. São eles filósofos como Sócrates, que pelos seus questionamentos de ironia e maiêutica, foi condenado à morte (e matou-se antes que o fizessem cumprir). Ou os alquimistas, cientistas que eram jogados no fogo redentor da inquisição. Ou os iluministas, frente ao absolutismo. Ou os nobres, frente os iluministas. Danton foi morto por Robespierre, mesmo sendo um partilhador da filosofia e poder, porque questionou seu método sanguinário de poder. Hitler matou judeus e outras minorias, foi radical no que tange padrões: ele quis limpar os padrões alternativos literalmente. E matou muitos nazistas na noite de longos punhais, para não ter disputas ou questionamentos. Stalin repetiu praticamente a mesma conduta. Os americanos fizeram a “Caça às Bruxas”, alusão obvia ao processo medieval, só que com os equivalentes socialistas.
Atualmente, nos encontramos numa época do capital, da tecnologia, dos avanços, da ciência voltada para o desenvolvimento (e para o aprofundamento das diferenças entre pessoas, nações e culturas). As maiores economias do mundo mandam nos preceitos que regem o pensamento da massa populacional. E todos estão convencidos que as liberdades individuais são mais respeitadas do que antigamente. Mentira!
Daqui a 50 anos, vão nos estudar e ver as mesmas coisas que vimos nas outras civilizações. Que nós não enxergamos por estarmos imersos em todos os preceitos e filosofias pré-estabelecidas pelo poder vigente.
E é por isso que temos uma população de 95% de pessoas que não falam inglês, e 70% das músicas que tocam em nossas rádios são em inglês. Bebemos Coca-cola, usamos Nike e Adidas (Ger), Computadores da Hewlett-Packard com processadores Intel, Usamos perfume Carolina Herrera e Giorgio Armani (ambos com sedes corporativas em NY), Bebemos Johnnie Walker (Sco), Absolut (Swe), Jack Daniels (Eua). Não preciso exemplificar tanto, todos já entenderam a mensagem.
As belezas-padrão e recorrentes são os olhos claros, os seios fartos, a cintura inexistente e o quadril vasto. Ou para exemplares masculinos, a altura, a força, definição muscular. A inteligência é banalizada. A crítica é banalizada. Existem aspectos velados que são intocáveis. E sempre vai ter o crítico que vai vir me dizer que há outras mulheres e outros homens em Hollywood. Mas estamos jogando com padrões, não com exceções. A grande maioria segue sim, os padrões.
E não seja hipócrita de negar que beleza faz, sim, diferença. Não é culpa de quem pensa. É arraigado na cultura, somos bombardeados com esse conceito o tempo todo. Desde crianças, somos selecionados por esses conceitos (por outros também). Nossa adolescência é marcada por imagens de pessoas, os atores e as atrizes, as modelos, muito mais do que por qualquer líder político. As relações amorosas são sim, muito mais freqüentes e possíveis se sendo bonito dentro dos padrões estabelecidos.
As pessoas inteligentes também são selecionadas desde pequenos. Mas reflita, numa sociedade que teme pelo questionamento do estabelecido, a pessoa inteligente vai ter essa característica plenamente valorizada? Claro que não. E as pessoas que não o são vão, com certeza enfraquecer a crítica. Porque é que existem alcunhas como “nerd, “CDF”, “geek”? Porque de alguma maneira, tem de se desmerecer, tem de se desvalorizar aquele que se esforça para ter informação. Porque, uma vez que a pessoa tenha uma visão mais bem fundamentada do que as outras, ela está num patamar superior de compreensão e, por extensão de controle. Mas até ai, tem que ir contra uma correnteza de controlados pelo estabelecido.
Daí temos o conflito de idéias entre poder estabelecido e poder emergente. Entre líderes e aspirantes. E quem vencer terá o direito de se estabelecer, e mais importante, de ditar para a massa o que eles devem fazer para serem controlados de maneira pacífica.
Enquanto isso, para entreter a massa longe das disputas de poder, damos um patamar inferior de poder à algumas pessoas, para que se persiga esse tipo de valor. Porque as pessoas são exaltadas pela beleza, ou pelo esporte, ou pela arte sem crítica? Porque isso não é ameaça para o poder. E todos almejam serem bonitos, atletas e cantores de música pop, menos pessoas disputarão o real controle. Por isso você um dia na sua vida já sonhou em ser um astro pop (leia-se: pop internacional, sertanejo, pagode, axé, pop rock...), um atleta de renome. Repare bem, são poucos, são uma porcentagem ridícula das pessoas que tentam que conseguem destaque nessas áreas. E mais importante, por duas vias principais: talento inato exorbitante, ou muito investimento.
Não pense que Justin Bieber ou Luan Santana estão onde estão por talento. Os pais de ambos investiram, e muito pesado para tê-los onde estão. Mas também temos Michael Schumacher, que era mecânico da equipe, mas era genial e conseguiu seu destaque, em um meio onde patrocino é 90% do negócio.
Mas veja bem, são disputas de vencer pessoalmente, não coletivamente. Afinal, todas as vitórias são pessoais. Sinceramente, até as mudanças de poder são disputas de ego. Porque a massa não escolhe seus líderes. As grandes viradas são feitas através da massa, mas não pela vontade dela. A massa não tem vontade. A massa é influenciada a querer. Os líderes fazem parte da massa. Ninguém é isento da influência, porque não existe uma liderança absoluta. Quem manda no mundo é uma intersecção de vários conjuntos de poder que se influenciam mutuamente. Por isso retorno às marcas. Garanto o que for que se você olhar as marcas do que você usa, teremos vários países de origem. As músicas que você ouve são de vários países. Os filmes que você vê, nem tanto.. Mas ainda assim.
No fundo, escrevi isso tudo só pra pensar. Eu não estou me excluindo desse âmbito de pessoas que usa coisas de marcas de países capitalistas, que sonha em ser um artista de destaque, que gostaria muito de ser lindíssimo, de namorar uma menina lindíssima. Não é só isso que conta pra mim, mas também essa forte influência que vem do poder faz parte de mim, como de todos, independentemente de classe ou gênero. Ao contrário do que uma grande amiga minha me diz, eu não me acho melhor do que ninguém. Somente mais sincero, mais aberto no que tange o que eu realmente acho das coisas. E se isso pra ela é arrogância, pra mim, juro que é simplicidade.
Fazemos muitas coisas que sabemos ser erradas, mas nem por isso, deixaremos de fazê-las algum dia. Ser influenciado por essa padronização nunca foi uma opção. Mas enquanto eu compreendo parcialmente o processo, não me sinto um hipócrita escrevendo ou falando a respeito. Vai que existe alguém muito mais esperto e forte de espírito que eu, que compreenda e consiga se libertar disso tudo. Vai de presente à esse indivíduo como um estimulo.
Estou publicando porque gosto de difundir minhas idéias. Se você não gosta, é só não entrar no meu blog, assim, nunca vai se decepcionar com o que eu escrevo ou penso!
domingo, 26 de setembro de 2010
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