sábado, 23 de outubro de 2010

Pra falar de Política e Medicina e Academicismo.

Fui "gentilmente" convidado a escrever para o jornal "O Patológico", do Centro Acadêmico Adolfo Lutz (Medicina Unicamp).

Esse é o primeiro texto que será encaminhado para publicação. Espero que seja publicado.


Queremos falar de política? Queremos falar somente de política? Queremos discutir juízo de valores em um espaço que pede idéias de valor?

Então, vamos falar de política. Mas não sem Medicina. Em um espaço criado para acadêmicos de Medicina, acho que não seria menos do que justo tratar de qualquer assunto de interesse dos acadêmicos, mas, lembremos de que não deixamos de sermos aspirantes à escola de Esculápio.

Pois bem, falando de Esculápio e Hipócrates, peguemos justamente o contexto clássico em que eles viviam. Contexto esse em que surgia a valorização do conhecimento, o homem como "medida de todas as coisas", o antropocentrismo e o racionalismo em alta. É nesse âmbito que surge a política como expressão cultural-social. Como o próprio nome remete, política vem de "Pólis", cidade, e representa em seu vocábulo, a "ciência de discussão acerca de interesses que remetem à cidade, e por extensão a todos que dela fazem parte: os cidadãos". É importante observar que falar de política não se restringe a discussões de posicionamento político, de medidas, de ideologias. Discutir política excede as discussões de rodas politizadas e excludentes. Discutir política é discutir condutas, buscar resultados e promover melhoras.

As instituições de hoje têm, em seu cerne, funções e delimitações definidas. O grande problema logístico e ideológico das instituições é a mescla entre orientação política, conduta e aspectos pessoais. Quando, à frente de uma instituição, há alguém com uma posição política definida, com uma conduta engessada em métodos supostamente melhores do que quaisquer outros (e completamente não-passíveis de críticas construtivas), e principalmente, que leva em consideração aspectos pessoais pra levar a frente uma congregação coletiva, essa instituição está fadada à desaprovação de seu público-alvo.

É interessante notar que sermos politizados é COMPLETAMENTE diferente de sermos políticos, que também difere muito de praticarmos política. Outro grande entrave surge daí, já que, se alguém começa a levar pra vida esses termos mal-explicados, esse alguém passa a se considerar político por ser politizado, ou vice-versa. Partindo daí, gera-se uma linha de conduta baseada em preceitos equivocados, que ferem o funcionamento de indivíduos e instituições.

Ser politizado é, basicamente, ter informação, discernimento, embasamento de vivência e de teoria. Ser político é, dentro do termo-comum, ocupar um cargo na estrutura estabelecida de admnistração, legislação, direito e poder. E por último, praticar política é lidar com pessoas em determinada situação/meio social de maneira a conseguir, através de conduta e discurso, gerar um assunto, uma pendência, uma necessidade ou mesmo uma vantagem. Praticar política é saber lidar com outros em uma sociedade.

Então pense bem, em qualquer instituição, existem aqueles que são políticos. Eles podem ser políticos que praticam política e são politizados, em um contexto ideal. O grande problema é quando isso é incompleto. Ou um político politizado e completamente alheio à argumentação, ou por outro lado, um político que não sabe sua função, mas lida muito bem com a sociedade.O primeiro caso será execrado. O segundo terá sua posição mantida. Ambos são desvios comportamentais.

E dentro do âmbito da Medicina, ser ambas as coisas é essencial. Um médico lidará com hierarquias, com instituições, com ordens e logística. Terá que tomar decisões conjuntas, com equipes multiprofissionais. E mais importante, terá que lidar com pessoas e suas necessidades, anseios, opiniões e crenças, tudo isso pra poder salvá-las e/ou ajudá-las. Se tivermos médicos excessivamente intransigentes, teremos pacientes desinformados e insatisfeitos.

E dentro do âmbito acadêmico, mais especificamente em uma instituição de massa, seja ela qual for, ser ambas as coisas também é essencial. Colocar no bolso uma instituição de posse e raio de ação coletivo é pedir pra ser criticado por uma massa razoável. Quando, numa instituição para muitos, segue-se a linha de raciocínio de poucos, priva-se uma grande maioria de usufruir plenamente, de ter coisas e funções acerca dos interesses da maioria. Fechar uma instituição coletiva para interesses, opiniões, ações e movimentos pessoais e ioneficaz e egoísta. Já tivemos inúmeros exemplos disso, como no Partido Comunista Chinês e Russo, como nas ditaduras militares, como no Nazifascismo e como em expressões absolutistas. O ponto comum desses movimentos é a insatifação da maioria e a crítica generalizada que os fez cair por terra, seja por incompetência, por guerras ou levantes sociais.

O bom líder é aquele que não gera constantemente motivos para ser criticado, pois uma vez que sua fraqueza é percebida por aquele que está sob sua jurisdição, esse alguém passa a ser forte na influência sobre a sua até então soberana decisão. Ou seja, ele perde seu status de líder.

Quer ser intransigente, mostre-se complacente.

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