sexta-feira, 12 de novembro de 2010

As caras da verdade

Esse texto é, talvez, uma prévia do meu livro. Se algum dia eu tiver foco o suficiente pra terminá-lo. Aqui vão um pouco das idéias que eu pretendo colocar nesse projeto de vida. Afinal, juro que um dia eu ainda vou publicar um bom livro. Pretendo falar sobre as verdades. Sim, no plural. Porque este papo de verdade absoluta não existe pra nós. Se existir alguma verdade absoluta, quem sabe é Deus. E não me venha ninguém dizer que, porque acredita em Deus, você sabe a verdade absoluta. Até porque, se você confia no seu pai e na sua mãe, você continua sem saber tudo aquilo que eles pensam. Quem dirá saber de Deus.

Partindo do princípio de que a verdade absoluta não nos é palpável, ainda assim, enchemos a fala pra defender o que chamamos de verdade. E então o que estamos defendendo? Sinceramente, estamos defendendo nossos pontos de vista. O que julgamos ser válido. O que julgaram pra nós e, inocentemente aceitamos. O que nos é passado pela mídia, por pais, amigos, igrejas, políticos. A dimensão e o teor das nossas verdades dependem da época em que vivemos, da nossa capacidade de independência, abstração, discernimento.

Pra exemplificar isso, reflita. Suponha que você é um agricultor, de um lugar isolado e pobre. Vem a chuva, intermitentemente com o sol. Aí, uma pessoa mais reflexiva dessa comunidade diz que os olhos de sua divindade são o Sol, e que a chuva são lágrimas de benção dessa divindade. E que a intermitência de chuva e Sol são sinal de bênção, e que somente se isso ocorrer, virá a colheita. E ela vem. E quando é época de seca, o rapaz (ou a moça) esclarecido diz que é porque as pessoas não estão dando atenção à divindade. E as pessoas colocam sua confiança, intenções e esperanças na volta da benção. E ela volta claro. Se as coisas foram explicadas, e ocorreram conforme a observação de tal sujeito, isso passa a ser uma verdade. E o portador da verdade, alguém de credibilidade.

Nesse último trecho, veja bem, esses três conceitos explicitados. O primeiro, evidente, é o processo de criação de um conceito divino. Atribuir à natureza um caráter consciente e controlador. O segundo, o conceito de geração de verdades a partir de processos mentais, e a comprovação da verdade pelo empirismo (julgado pela capacidade racional-emocional-crítica de quem recebe essa verdade). E o último, o poder que a capacidade de convencimento/ geração de verdades gera. As pessoas com maior capacidade de persuasão e maior capacidade de racionalização de processos conseguem ganhar credibilidade para ditar conceitos e verdades. Passa a ser um agente no conceito alheio de verdade.

Outro forte moldador de verdades é o conforto próprio. A geração gratuita de esperanças na própria fraqueza e desculpas para as próprias condutas. Quando se gera uma verdade, essa verdade dificilmente será incongruente com o que se segue e acredita. E aí é que acho que Deus sai injustiçado da história. Porque o mecanismo de muitas religiões de enganadores oportunistas é justamente esse, de justificar os problemas das pessoas com o conformismo, dizendo que Deus dará, que Deus fará, e que a boa-vontade de Deus para contigo é proporcional à devoção de cada um. E a devoção se mede em orações. E em depósitos para os “transmissores” da palavra de Deus. Novamente, são os geradores de verdades se utilizando de seu poder de persuasão para tirar vantagens sobre os outros.

Então, convenhamos, no fundo, há uma troca. Por um lado, pessoas querendo masturbação no ego, na medida em que querem ouvir que há um acaso que põe as vidas nos trilhos, que problemas se resolverão sozinhos, que pra quem acredita tudo dá certo. E há pessoas que estão dispostas a usar seu tempo dizendo isso, mas cobrando seu preço. É um casamento de necessidades pessoais.

No fim, se nos convencêssemos que a verdade é que não há verdade, que quem não percebe que não pode acaba fazendo, e que todas as correntes que prendem as nossas ações têm um só nome: medo de arriscar; tudo isso seria um caminho mais válido pra efetivar reflexões, pra aprender a não ser tão controlável e confortável nessa cama de pregos que é a verdade oportuna. Gente, vamos depender menos da vontade, e mais da força de vontade.

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