Não sei ao certo se nasci na época certa. Mas certamente que os conflitos internos que os “valores” externos me causam não são uma coisa dependente do meio. Até porque hoje a gente tem uma massificação do que se pensa e faz, massificação essa que não permite a formação de meios totalmente independentes. A gente sempre vai encontrar “tipinhos” em qualquer meio, estereótipos desgastados na cabeça de quem os vê, seguros na cabeça de quem os contém (ou neles está contido).
Afinal, os padrões comportamentais, padrões ideológicos. O derrotismo passivo, aquela coisa de predestinação divina que Santo Agostinho insistia em defender como lei de Deus. Coisa de fracos! Fracos que somos. Como ninguém tem personalidade suficiente pra ir contra a maré, é mais fácil aceitar que a vida é assim do que tentar nadar contra a correnteza. Claro também que quem está nas bordas tem onde segurar, e não quer sair dali. Portanto, o mais interessante pra quem é favorecido por essa situação sócio-cultural e manter os outros subjugados, mantê-los se debatendo contra as pedras da “correnteza moral”.
O mais curioso é que virou bonito ir “contra em termos”. Gente pseudo-bem-intencionada que tem como função e promoção criticar o meio vigente. Ir contra tudo com palavras ditas com uma única intenção: DESTACAR-SE no meio vigente, e não tentar mudá-lo. As pessoas fazem suas críticas em direção à algo que elas gostariam de ter como um suporte para a sua ascendência em detrimento do resto, que já está preso nos trâmites da sociedade-correnteza.
Claro que, pelo menos para mim, é irritante ver a pessoa que se entrega a todas as modinhas, a tudo aquilo que já foi dado “mastigado e digerido” para lhe dar uma bela congestão! Afinal, acho que a capacidade crítica de julgamento gera uma “alergia” à maioria das modinhas superficiais.
Seria cínico da minha parte dizer que eu não faço parte de nenhuma modinha, já que inserido no contexto social em que estou, fica impossível não ter contato com nenhuma expressão mais clichê. Como diria um poema que há muito eu li (e que de cujo autor não me recordo), um homem não é uma ilha. Ninguém vai conseguir ser imune à todas as defecações (expressões) que são espalhadas no ventilador (mídia), causando uma grande sujeira (repercussão).
Mas ainda assim, chega a ser ridículo ver pessoas (a grande maioria) se deixando levar por tudo que é correnteza. E criticando com força tudo o que não vai a favor da corrente, a favor da facilitação de compreensão, a favor do não-pensar. Sim, eu sei que no mundo de hoje, somos julgados por etiquetas, por dinheiro, pela produtividade. E que não da tanto tempo pra parar e pensar no que se está ouvindo, lendo, conversando com a devida atenção. Aí, indubitavelmente, o que for mais digerível fica mais pertinente.
O maior problema é que a magnitude que essa expressão pobre de valores e idéias toma é tamanho, que até as pessoas que podem procurar algo mais estacionam no conforto da pobreza semântica. É muito mais fácil se conformar com tudo que lhe dão quando isso só fala de coisas básicas, com melodias parecidas e sem variações, com palavras batidas e sem significações maiores do que está lá, no papel.
Além é claro do vouyerismo cultuado, cultivado e muito bem crescido na mídia e na mente das pessoas. Dentro de um contexto onde todos trabalham muito, batalham muito, se esforçam demais pra conseguir pouca coisa, ter um sonho, uma ilusão de que sua vida pode mudar a qualquer momento e que você pode ter uma vida de livro, ou de estrela de cinema é um combustível perfeito pra imaginação. Aí a praia do Leblon freqüentada só por gente bonita que se come, e ficar trancado em uma casa com um bando de gente bonita e que vai ter status de estrela assim que sair dali sem um motivo real e válido, isso é tentador. Isso é invejável. E ninguém pensa duas vezes em valores, em ser íntegro e honesto quando você sabe que tem muito dinheiro envolvido na jogada. E é legal ver até onde as pessoas vão por isso. Só que também é frustrante pra quem reflete, porque a pessoa pensa em tudo o que ela faz na esperança de que seja algo bom, engrandecedor. E aquelas pessoas que contradisseram tudo o que no que ele acredita são muito, muito mais valorizadas que ele.
Enfim, num mundo onde o pensamento é medíocre, a reflexão generalizada é só um inalcançável, uma uva verde pra raposa que não a alcança. E não adianta, até quem não gosta prefere se dobrar às “facilidades” de ser vazio, por não ter força pra lutar contra o que acredita ser errado. Parabéns pela extraordinária mediocridade, ser humano!
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
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