domingo, 29 de agosto de 2010

Desconstrução Maquiavélica.

O filósofo do absolutismo Nicolau Maquiavel esteve certo na sua avaliação, frente à situação em que ele estava. Malandro como sempre fora, Maquiavel preso e condenado escreveu sua obra prima “O Príncipe”, livrando-se de sua pena e constituindo uma das bases mais sólidas da filosofia dos estados nacionais recém-formados e seus denominados “detentores”. Juntamente com Jean Bodin e seu “direito divino”, ou Thomas Hobbes e o monstro “Leviatã”, essa idéia levaria os líderes megalomaníacos acreditarem que eram deuses, mergulhando a Europa num período nefasto de relações não-lineares, desiguais e injustas.


A frase mais famosa atribuída a Nicolau Maquiavel é a máxima ”os fins justificam os meios”. Óbvio que reis sedentos de poder acharam a desculpa perfeita para justificarem suas sandices reais. Tudo pode ser feito com um objetivo. Isso, aliado com a Igreja e sua doutrina agostiniana de pregar aos quatro ventos que Deus já nos escolhia para uma função, inibindo as aspirações de crescimento e mudança. Há um motivo claro para dizer que essa foi a “idade das trevas”. E não é a falta de produção científico-artística, definitivamente. As trevas se estendem sobre a opinião mediana, coletiva, que era acobertada pela ignorância imposta a partir da conjuntura sócio-política.

Só que hoje, não há mais filosofia engrandecedora de líderes, mas sim de poder. Hoje, o poder não é mais hereditário (pelo menos em tese). A doutrina do consumo, do liberalismo e da competição capitalista abre um precedente de possibilidade da ascensão social a partir do esforço, do trabalho. Filosofia surgida a partir dos dizeres de Calvin e Luther, que com sua contestação frente ao “inquestionável” poder real criaram novas religiões como forma de protesto. A máxima de Calvin é “O trabalho dignifica o homem”. Para uma burguesia sedenta, foi a desculpa perfeita para se apossar o quanto antes dos meios de produção e dar à administração status de trabalho. Assim a administração do patrimônio, mesmo que exploratória, é encarada como seriedade, esforço e trabalho, e assim dignificante. A idéia de Calvin misturada com a idéia de Maquiavel criou o que encaramos hoje:

O rei absolutista do mundo de hoje é o capital, é o dinheiro. Só que ao contrário do rei humano, que detinha propriedade dos seus súditos, os súditos do capital podem tê-lo, deter uma parte do seu “poder divino”, uma parcela dessa realeza, e exercer poder sobre aqueles que têm menos. Assim, no mundo contemporâneo, os fins justificam os meios de uma forma mais arraigada. O fim “ganhar dinheiro e ter poder” justifica qualquer tentativa de chegar a esse patamar. Por isso hoje temos médicos que atendem pacientes em série, bancos que identificam pessoas como números, a impessoalidade das relações, a leviandade da importância do próximo. Os interesses dentro de amizades, de namoros, de relações pai-filho.

Não é culpa nossa viver assim. A única culpa é aceitar tudo sem tentar mudar. Maquiavel estava errado, Calvin, equivocado. Os meios sempre tem que justificar os fins, isso sim. Porque o fim é a morte. E a morte não justifica nada. Ter uma vida válida, feliz, realizada e principalmente sem omissões justifica a vida, compreende a morte. E não é o trabalho que dignifica o homem, mas sim a conduta. Se sua conduta for a correta, se seu esforço for bem empregado, não só no trabalho, mas no descanso, no dia-a-dia, no viver bem e intensamente, isso te dignificará.

Finalmente é chegada a hora de nos desapegarmos de filosofias seculares pra começar a aprender com os erros e não deixar que eles continuem sendo nossa doutrina. A história não se repete. Nossos erros é que insistem em serem cometidos sempre.

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