quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A percepção da felicidade.

Creio que este deva ser o aspecto mais importante para a vida de um dado cidadão. O que é ser feliz efetivamente para nós? Inicio este questionamento com um frase que comumente é dita à alguem que não esteja feliz: "você não é feliz porquê quer". Não há expressão mais estúpida e infundamentada do que esta. A pessoa que diz isso é demasiadamente egoísta, principalmente com o primeiro aspecto que trataremos aqui: a percepção da felicidade.

Para tanto, vamos recorrer à um ser simples: uma bactéria. A bactéria não pensa. A bactéria é um aglomerado molecular complexo e organizado, cuja carga genética e fatores do ambiente determinam as ações. Uma bactéria necessita de iluminação, pH, oxigenação, substratos e condições adequadas para seu desenvolvimento e replicação, que leva à perpetuação da espécie. Esta é a "sina" da bactéria, determinada pels seus genes, seus inúmeros códigos de transcrição gênica que determinarão sua forma, função e sucesso. Posso eu dizer que a bactéria é um ser feliz? A resposta é NÃO.

A bactéria é um algoritmo lógico, ou melhor, BIOlógico que se perpetua. Ela não "sente", não julga, não tem livre-arbítrio ou escolhas. A bactéria é um algoritmo que, numa mesma situação, salvo casos de mutações, irá comportar-se exatamente da mesma forma em todas as ocasiões.

Agora, retornemos ao ser humano. O ser humano é um ser biológico determinado pelas mesmas bases moleculares/genéticas de uma bactéria. Assim como o ser unicelular, o ser humano também necessita sobreviver e reproduzir. Mas o mágico-trágico da situação reside na evolução. A capacidade sensitiva do ser humano é um resultado lógico da natureza. Em um ambiente supostamente caótico, onde as coisas não reagem necessariamente da mesma maneira, e em que uma só condição alterada possa causar profundas mudanças na expectativa de perpetuação da espécie e do ser, este ser necessita de ter um mecanismo rápido de avaliação do meio, dos iguais e dos outros animais/fatores naturais. E como cada um de nós enfrenta uma visão diferente do mundo, as possibilidades de ação são gigantescamente maiores do que a de uma bactéria. O que causa uma gama de prioridades completamente diferente para cada indivíduo, muito embora as bases do comportamento puramente biológico e descartando-se o aspecto social seja extremamente similar, em suas origens.

Os sistemas dopaminérgicos mesolímbicos e serotoninérgicos do cérebro são responsáveis por associar, devido à carga genética e às experiências vividas, um estímulo à necessidade que se tem dele. E quanto maior a necessidade, maior será o "prazer" sentido pelo indivíduo (ativação do sistema). É por isso que comer coisas com gordura e carboidratos como chocolates, tortas e bolos é tão bom: evolutivamente, a reserva energética fornecida por esses alimentos era essencial à sobrevivência. E igualmente por isso algumas pessoas gostam de frutas, verduras e fibras. Com a sedentarização do homem, passamos a ter necessidadede controlar e complementar a alimentação, uma vez que temos oferta de estoque, e não necessitamos mais de tanta reserva: aí comemos alimentos que contém os danos do excesso de carboidrato, como colesterol HDL. É igualmente por isso que o sexo é bom ou esportes dão prazer. O sexo está relacionado à reprodução e o esporte relacionado à virilidade, e portanto a capacidade de defesa da família e de sucesso em uma investida em busca de alimento. (Aí, vemos que o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento de valores de uma mulher seleciona naturalmente um homem pelo seu aspecto físico, inconscientemente)

As drogas funcionam, não como estímulo desencadeador de vias naturais, mas pela ativação artificial desses sistemas de prazer através de reações químicas. E como o prazer é associado à sobrevivência, a ocorrência desse desbalanço químico que é interpretado como prazer causa uma informação de necessidade em vista de sobrevivência: esta é a gênese teórica do vício

Nesta análise, vimos aspectos sedimentados há longo período, ainda com o homem na natureza. Mas com o desenvolvimento da sociedade atrelado à incrível capacidade de aquisição de informações do cérebro e julgamentos; a criação familiar/ convívio social frequente (como amigos) passa a ser determinante no prazer e nos aspectos que dão prazer. E então, sendo o prazer algo estimulado em nossos organismos, dá-se um nome para o conjunto de fatores causadores de prazer cotidiano (ou esporádico): felicidade.

E aí, temos um grande conflito de idéias. Como as novas idéias relacionadas ao conhecimento, à capacidade de inteligir do homem e ao hedonismo (vida com objetivo de ter prazer) contrapõem-se de certa forma com os estímulos naturais, que fogem do nosso pleno controle, por ser aspecto arraigado em nossa evolução (e tido como inferior para os entusiastas do homem como ser inteliente e superior, o que o autor considera um grande erro).

Voltamos novamente à questão, associada à uma situação-exemplo. Pense num cara rico, bonito, bem-sucedido. Às vistas da nossa sociedade moderna, pseudo-meritocrática, superficial e estética (grato, Aristóteles ¬¬') este cara é um ser que deveria ser feliz, por ter realização pessoal. Porém, temos que os pais dele, trabalhadores, honestos e de uma evolução extremamente batalhada passaram a ele, de forma relativa a carga de valores e objetivos tidos como "nobres" e "válidos". Assim, ele que é um herdeiro do esforço, sente-se infeliz por não poder "merecer" tudo aquilo que lhe traz um conforto material.

Aí, neste momento entra o pior inimigo da felicidade: o ser-humano lugar-comum. Aquele estúpido mediano que engole as pressões sociais e conceitos carne-de-vaca, defendendo com unhas e dentes o pensamento coletivo (que, pautado em Nelson Rodrigues, permito julgar burro)

Este besta é que dirá ao nosso amigo do parágrafo de cima "você não é feliz porquê não quer", já que, para ele, ser sem perspectivas, aquilo que o amigo já tem é o objetivo final, e não uma condição sine qua non de nascimento. Isso causa inveja e antipatia para os outros, e no coitado de cima, causa uma dúvida cruel e uma crise de valores que pode culminar em auto-fortalecimento, ou mesmo na descrença total de valores e atitudes pautadas no lugar-comum.

É por isso que o mundo hoje é uma porcaria. Porque a razão entre pessoas sensatas e pessoas lugar-comum é ridícula. A felicidade é uma cartilha, um caminho aberto, do qual já sabemos os destino e mesmo as paradas para ir ao banheiro. Não se aproveita o potencial do ser humano para gerar diferentes pontos de vista. Mais do que isso, se repudia qualquer tentativa de mudar esta situação. Porque é muito mais fácil vender produtos e informações para pessoas iguais: a inovação, a verdadeira e intelectual inovação passa a ser desnecessária porque aumenta os custos sem aumentar a população atingida.

Os amores, os empregos, os objetivos, as ações, as brincadeiras, as informações, a escola: tudo conspira para um mesmo caminho. O uniforme, as fileiras, as apostilas, as provas: todos temos que sentir, saber, julgar e apreciar as coisas de uma mesma forma, obtendo os mesmos resultados. A vida passou a ser uma fórmula cujo resultado é a morte, e cujo processo não varia. Uma prisão em forma de tempo.

Por isso eu peço: perceba-se feliz. Agradeça o que tem. Procure saber o que vale a pena por si só: veja todos os lados da mesma moeda. Não criarão filósofos para pautar os seus pensamentos. Mas conhecê-los, a todos eles, de uma época mais privilegiada onde pensar ia além de teclas e fórmulas, só irá acrescentar bagagem para, quem sabe, cada um de nós seguir um destino próprio, abrindo as próprias estradas.

O que te faz feliz. O que é que a felicidade te faz?
Questione-se, mude-se.

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