Ela saía de casa com os olhos semi-cerrados pelo sono e por causa de umas brechas de Sol entre os galhos de uma árvore da calçada. Pensava em trivialidades quaisquer que não se misturassem com a escola ou algo que lhe chateasse. À trilha sonora de umas três ou quatro bandas das quais não sabia o nome, as quais baixara de uma playlist bem avaliada em um site de letras. Também não se dava ao trabalho de saber o que diziam. Ia na inércia dos passos para a escola, para que na inércia das palavras do professor, fizesse seu papel coadjuvante no script em que sua mãe depositara investimentos e esperanças de estrela.
- Educação é cara minha filha.. Estuda pra não ser como a tua mãe..
Ser como ela? Ah, ela é legal, tem um bom marido e não sei por que eu não poderia ser como ela!
Mas como toda filha sabe, mães nunca devem ser contrariadas. Então, ela concordava passivamente.
As aulas eram, no fundo, um recanto. Como os professores não a deixavam escutar música, e ela definitivamente não estava interessada no que eles estavam falando, ela usava esse tempo pra vegetar, pra manter o descanso da cabeça constante. As palavras no mesmo tom, aquela marcha disciplinada que era acompanhada por burburinhos de fofocas quaisquer. E interrompidas apenas pelas perguntas de duas ou três pessoas que incrivelmente tentavam acompanhar aquele discurso despropositado. Mas enfim. Não importa.
No intervalo, levantava da cadeira pra esticar as pernas e encontrava as outras meninas só pra falar mal dos outros. Sem propósito algum. Deve ser natural do ser humano. Porque era divertidíssimo! Mas é. Roupas, sapatos, modos, manias, nada passava desapercebido pelas outras. Ela mesma não se preocupava muito com isso, mas dava umas risadas pra não perder as amigas. Por certo que elas falavam mal dela nas costas e, ela mesma achava as meninas um pouco dispensáveis. Mas lá estavam elas, espontaneamente juntas, sem muito choro, nem muita vela.
Após a aula, saía da sala e perdia uns 20 ou 30 minutos no portão observando e comentando os transeuntes com as amigas. Era legal flertar com os rapazes bonitos que passavam ali. Um pouco monótono, diga-se. Bonita como era e sabia, não exigiria muito esforço pra fazer acontecer um affair efêmero. Um olhar diferente, e, no dia seguinte, o rapaz fingia ter atitude, e ela fingia que ele tinha, ao aceitar o seu convite pra sair.
Claro que alguns caras passavam flertando sem chance alguma. Um inconveniente necessário. E eles tinham lá sua função. No mínimo, poderiam acrescer qualquer mixaria de auto-estima. Como se ela precisasse..
E a verdade que ela nem tinha consciências de todas essas coisas que aconteciam. Era praticamente uma aplicação da lei do mínimo esforço, com o complemento da máxima recompensa possível. Uma função simples (função?).
Depois, era uma mescla de estender as conversas de intervalos e portões no computador em casa, com assistir umas séries, dessas romantescas bestas, pra não fugir dos assuntos de amanhã, e pra poder fingir que um amor daqueles, mastigados entre pessoas bonitas e populares era algo realmente melhor do que prezar algo mais.
De noite, recebia umas mensagens no celular de affairs quaisquer, que respondia com a mesma riqueza de argumentos que lhe eram apresentados, com representações cardiovasculares em caracteres alfa-arábicos e “te amo”s levianos.
E ia dormir como acordou, fechando de vez os olhos semi-cerrados pelo sono, e pra evitar as luzes que passavam pelos galhos da árvore da calçada. As luzes eram de um poste. E nem percebia o beijo de boa noite que sua mãe lhe dava depois de cobri-la e tirar o notebook do colo.
sábado, 7 de maio de 2011
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário