domingo, 30 de janeiro de 2011

Pecado pela santidade, loucura pela sanidade.

O dia começava como outro qualquer: à trilha sonora de “Billionaire” como despertador, sol nascendo e entremeando a persiana, e o cheiro de café-da-manhã invadindo o quarto. Deco ainda estava com um incômodo, que não sabia se era dor-de-cabeça, ou preocupação. Sua manhã antes de levantar-se era a extensão da noite que outrora dormira: remorso. Ele não podia mais lidar com tudo aquilo.

Com aquela briga sem motivos que Carol sempre insistia induzir com sua mania de ser mais menina do que mulher, mais orgulhosa do que companheira. Tudo quanto falara era usado contra ele. Tudo que fazia era ofensivo, era incômodo, o típico namoro que se gastou pelo papo fraco das pessoas à volta.

Se Deco pagasse aluguel de palco, para ensaiar as respostas que queria dar às atitudes de Carol, ele estaria falido. Mas como ele estava no ônibus, ensaiava olhando para o espelho improvisado na janela embaçada pelo frio das 6 da manhã, e fazia da sua imaginação, seu palco.

Ele não poderia errar de novo. Não dessa vez. Deveria dizer tudo o que estava pensando, e que tanto lhe tirava o sono nas últimas noites. Ele teria que ser perfeito. E se repetiu em pensamentos tantas vezes quanto o tempo da viagem lhe permitira. Ou ela aprenderia a respeitá-lo, ou simplesmente não daria mais pra continuar.

E de repente, ele a via tão sensível quanto intransigente. E se ele magoasse ela? E se ela ficasse mal demais? Como é que ele poderia prever?

Ele chegou à faculdade e não a encontrou. E nada do que era passado nas aulas entrava na sua cabeça. Ele só ficava ensaiando e ensaiando. E não poderia errar.

Ele encontrou-a na hora do almoço. Ela não parecia diferente dos outros dias. Será que ela estaria pensando naquilo tudo tanto quanto ele? Aquele não era o momento de dizer nada.. Ele esperaria o fim da aula, à tarde.

E preso em seus pensamentos, ele permanecia no silêncio que era um falatório interno, deixando-o inquieto e nervoso. E a tarde passou. Ele já transparecia o nervosismo. Encontrou-a na escada, na saída. Tomaram um café juntos. Ele observava o melhor momento.

Era agora. Era agora!

Ela levantou-se levemente irritada, deu-lhe um beijo e só. Foi-se embora, não sem antes reclamar que ele estava calado demais, e que aquilo era estranho. E ele nada disse. Tudo errado mais uma vez.

E se ele não estivesse tão ocupado gritando com seu pensamento, ele repararia que ninguém mais ouvia. E que ninguém mais se compadecia das suas aflições. E que, embora estivesse cristalino o motivo dos seus transtornos, que nada de explicava sozinho. E mais do que tudo, que nada era perfeito, e que por mais que se planejasse, nada sairia como um rascunho que se faça.

E ele dormiria transtornado pelo que nunca fora dito ou demonstrado, achando que as pessoas não o compreendiam, quando, no fundo, ele mesmo nunca diria nada à ninguém, preso pelo receio de não ser perfeito. Ele era perfeitamente omisso.

Um comentário:

  1. Minha ideia até que foi boa! hahahahah gostei muito Cris! :D
    vou pensar outro tema, e te falo! beijoos!

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