terça-feira, 1 de novembro de 2011

Um prelúdio aceitável.

Anita se deparava com o marido na espreguiçadeira. O sol da manhã do mediterrâneo lhe faz bem. Não sabe ela bem ao certo até onde o que sente por ele é atração, amor. Só que em dado momento estavam eles casados. Ela suspirava um pouco entre um e outro pensamento.

Lembrava de algum jovem tolo que, pobre dele, ficara amigo demais para poder lhe causar algum suspiro sincero. A sombra do seu chapéu escondia o semblante sério que perspassava por entre suas têmporas. Aqueles suspiros de outrora. Incitados por vezes em alguem que nao lhe apreciava. Ou nos cafagestes mais célebres e seus carros de luxo.

Não era algo tão profundo. Era fútil, vivaz e jovem. Quando crescesse, tudo aquilo passaria. E então os bons-moços estariam ali, prontos a carregá-la com seu romance e conversas agradáveis, à uma boa vida. Afinal, tantos deles se mostraram aptos a isso... Mas não naquela época. A belle-époque de uma dama não deve ser gasta com maturidade. As aventuras são necessarias.

E mesmo agora, Anita não sabia ao certo porque é que Domenico não lhe causa mais suspiros como antigamente. Suas formas ainda são bem torneadas. Seus galanteios ainda são requintados. E ele ainda é cobiçado pelas jovens. Mas não lhe causa mais suspiros.

E quando dois pares de olhos azuis diluem sua pintura turva, a voz de Fiorentina, acompanhada da avó Antonia invade os ecos do pensamento, trazendo-a de volta.

- Mamãe, tenho algo a te contar!

Sua carinha de quem fez alguma "arte" incitou a curiosidade da mãe

- Diga, fiore mia!

- Eu dei um beijo no Paolo!

Então Anita se lembra de um outro Paolo.. Perdido em algum primeiro beijo inocente, tanto quanto os olhos de sua pequena filha, tão vivo quanto o azul dos interessados olhos de sua mãe, até então, em silêncio.

- E quem é Paolo, cara mia?

- É meu melhor amigo!

E se faz mais forte o ímpeto dos preconceitos de sua mente:

- Mas filha, entenda com a mamãe: não devemos nos apaixonar pelos amigos. A gente pode estragar uma amizade assim.

E com isso, deu-lhe um beijo e saiu, a caminhar na praia, pensando em todos os amigos que nunca foram mais do que isso.

E a avó Antonia, sábia que era só deu tempo ao tempo, até que Fiore se recuperasse da carga de uma verdade que não fazia parte de seu mundo.

- Mas vovó, por quê a mamãe diz isso? Eu gosto muito do Paolo...

- Olhe, minha flor, sua mãe diz isso, porque um dia, alguém disse a ela, e ela acreditou. Talvez ela nao saiba que, se eu também tivesse ouvido esse conselho, nem ela, nem você estariam aqui.

- Nossa, vovó! Mas mesmo assim, posso continuar a ver Paolo?

- É claro que pode, cara mia. Tome para si estas palavras. Uma grande música que permanece apenas na mente de um gênio e um grande homem que permanece apenas na sombra de uma amizade tem uma coisa em comum: nenhum dos dois poderá jamais fazer você plenamente feliz.

- Não entendi, vovó...

- Não se preocupe, Fiore. No tempo certo, você escutará a música, e saberá que ela veio da mente de alguém..

- Você fala engraçado vovó..

- Tem mais graça a medida que o tempo passa, cara mia!

E aqueles dois pares de olhos azuis caminhavam na beira do mediterrâneo, enquanto as palavras de Antonia ecoavam na mente da pequena Fiore.

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