Não quero soar nostálgico, afinal, como ter saudades de algo que nem se viveu? Acho que fica mais como um desejo, como mais um “se” perdido num baú de possibilidades que não vieram a ser. Mas pois que penso na nossa sociedade, a ocidental, feita na forma do negócio familiar do tio Sam, regido pela cartinha do panis ET circencis romano, e pela filosofia aristotélica, agostiniana e de mais alguns iluministas por aí.
Mesmo com todo esse contexto, o amor era algo mais palpável. O romantismo era algo mais presente, sem ridicularizações, ou mesmo padronagens nunca alcançáveis de filmes água-com-açúcar da Jennifer Aniston. Era um amor e um romantismo genuíno que não creio existir mais. E digo isso de uns 20 anos pra cá, que corresponde, num infortúnio, a mais ou menos a minha idade.
Pode até ser que eu mesmo idealize o que não tenha vivido, pelo fato de achar que essa nossa realidade é insustentável, e pela crença de fé, em que não é possível que antes mesmo dessa febre de desapego em que vivemos, que as pessoas já perpetuassem essa “objetização” e funcionalização da relação pessoa-pessoa.
E você pode se perguntar: o que há de diferente? E são várias coisas. Todo um contexto que obriga todos nós a não perdermos tempo com o amor. É tudo como no McDonalds: vem pronto e em tabela. É só pedir, e nem se dê ao trabalho de perguntar como é feito, e melhor, porque não é como o cartaz logo acima do atendente.
Porque aquele sanduíche brilhante, cheio de gergelim, alface crocante, um hamburger regular e fatias de tomate milimetricamente cortadas, em meio ao cheddar perfeitamente fatiado e posicionado simetricamente não parece NEM UM POUCO com aquela plasta pingando gordura e molho cheddar, a alface caindo em uma mordida e o pão murcho e sem aquele gergelim crocante.
Ainda assim, o mesmo gosto que seu cérebro idealiza à imagem e semelhança da propaganda vai ser o que será armazenado como correspondente à plasta calórica que você vai ingerir. E nosso corpo é burro, mesmo com nossa dieta “superfaturada”, ele ainda acha que se não armazenar energia, vai morrer de inanição. E é por isso que os nutrientes orgânicos mais energéticos como carboidratos e gorduras são muito mais saborosos do que fibras e óleos insaturados. O paladar também é um adendo evolutivo, que age pelas vias de prazer para manter-nos querendo comer.
E o que dirá essa metáfora, senão a conceituação do amor-pronto? Há um catálogo prontinho, feito especialmente por Walt Disney para que as moças se deliciem: O príncipe encantado. Um jovem alto, forte, bonito, descompromissado, rico, poderoso e com um belo meio de transporte agregado, além de um bom castelo.
E quando você encontrar aquele imbecil-casca feito de roupas de marca, carro importado e cobertura, ele será o seu sanduíche pingando com gosto de príncipe encantado. Por que o sexo e mesmo a menção da realização social com esse ser vão ativar a mesma via dopaminérgica mesolímbica de prazer que o alimento carboidrático, ou a cocaína, ou tantas outras coisas ativam. É o prazer “fast-food” na vida social: o “fast-love”.
Enquanto os antigos conheciam-se jovens, casavam-se, conheciam-se e aprendiam, dia-a-dia a se amarem e a construírem o amor, o respeito, a vida e mesmo a carreira, como um processo natural; hoje, já queremos um companheiro(a) em moldes pré-determinados, que remetam a sucesso social, à estabilidade, à status, á satisfação hedonista. Não é uma questão de encontrar alguém que seja isso. É uma questão de ter o príncipe e a princesa encantados encalacrados na mente e tentar por todo meio possível, psicológica e socialmente moldar o parceiro ao cardápio do Walt Disney. Há pré-requisitos, seja beleza, seja grana, seja status, seja físico, para que uma pessoa cogite relacionar-se com você.
Quando você olha para um rio, vê a água doce correndo pra se misturar com o mar salgado, você não deve pensar que esta água está sendo perdida. Porque, por meios naturais, esta água evapora e torna aos lençóis freáticos, para servirem de novo às correntezas doces. A não ser que consigamos poluí-la.
Assim é o nosso tempo. Ele não é desperdiçado. Não precisamos de moldes para achar o par perfeito. O tempo bem investido retorna para nós como experiência, lembrança, conseqüência e história de vida. Assim como perder tempo com um molde, uma imagem ideal ao fundo da caverna de Platão é uma agressão, uma poluição do tempo e, este sim, não retornará mais.
Por isso, faça sua própria comida, use os ingredientes certos de forma equilibrada. Prepare uma refeição com sabores e componentes diferentes que te permitam o prazer de um carboidrato, e o bem-estar de um alimento rico em fibras e vitaminas.
Faça o seu amor conforme o tempo lhe dê as oportunidades, sem a necessidade de moldar a pessoa à sua volta. Abdicar totalmente de um chocolatinho de vez em quando ou mesmo de uma preferência, uma vaidade ou uma segurança na vida é impossível. Mas deixar as coisas ocorrerem naturalmente, mesmo com um pouco de expectativa e mmoldes ainda é mais saudável do que procurar o seu príncipe de cardápio no fast food do amor.. Senão o máximo que você se torna é um “fast-food” metafóricamente trágico.
sábado, 23 de julho de 2011
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